Urbanismo de luxo na excludente Dinamarca: o caso de Copenhague

Por Anthony Ling (publicado originalmente no site mercadopopular.org)

 

Copenhague é uma das cidades com maior qualidade de vida que eu já visitei. Correção: Copenhague é a cidade com maior qualidade de vida que eu já visitei. Não sou autoridade nenhuma, mas minha percepção é praticamente consenso, pois a cidade foi votada em vários rankings como a melhor para se viver. Planejada até os últimos detalhes, Copenhague tem ar puro, áreas verdes, excelente mobilidade urbana e tanto construções novas como antigas são da maior qualidade arquitetônica.

É uma cidade refinada em todos os sentidos e que, urbanisticamente falando, tem servido de referência para estudiosos de cidades do mundo inteiro. Jan Gehl, que ajudou na transformação da cidade, foi a pessoa que cunhou o termo “Cidades Para Pessoas”, nome de seu livro publicado em 2010 que virou um bestseller instantâneo em urbanismo. Seus ideais incentivam o uso da bicicleta (cerca de 40% dos moradores de Copenhague pedalam para se transportar) e focam na qualidade de vida geral dos cidadãos, e não estritamente no fluxo de tráfego de veículos motorizados, um objetivo que muitos planejadores brasileiros possuem até hoje.

Copenhague e o trabalho de Gehl geraram uma legião de seguidores mundo afora, desde influenciando a criação de blogs como o Cidades Para Pessoas, da jornalista Natália Garcia, até a criação de um termo próprio, “Copenhaganize“, se referindo a projetos que incentivam o uso da bicicleta no meio urbano e, é claro, uma “cidade para pessoas”. Gehl certamente fez um ótimo trabalho com a cidade existente: 97% dos moradores se diz satisfeito com a cidade.

Quase 40% dos moradores de Copenhague usam bicicleta como principal meio de transporte. [Foto: Arquivo pessoal]

Mas se a cidade é tão boa, porque ela cresce tão pouco? Assim como produtos de luxo de altíssima qualidade e com oferta limitada, Copenhague se torna acessível somente para um grupo seleto de pessoas, sendo a 15ª cidade mais cara do mundo para morar. É a velha lei da oferta e demanda em ação.

Copenhague é capital da Dinamarca, um pequeno país escandinavo reconhecido pela sua alta qualidade de vida. A Dinamarca possui duas políticas particularmente relevantes para o aumento do custo de vida (e não vou falar sobre gastos governamentais, presentes também no resto da Europa): uma das economias mais livres do mundo e uma das políticas de imigração mais restritivas do mundo, ao mesmo tempo. Isso significa que sua economia permite uma enorme geração de riqueza para aqueles que moram no país, mas sua política migratória impede que pessoas de fora possam entrar e participar desse próspero ambiente econômico, ajudariam a baixar custos trabalhistas e preços ao competirem com os locais. Para manter o status quo e sua “hegemonia cultural”, a Dinamarca se tornou um grande “clube de luxo”, já que pobres imigrantes não podem se tornar cidadãos: além de serem obrigados a falarem dinamarquês, é necessário depositar cerca de R$50 mil em uma conta bancária estatal para cobrir as despesas do Estado de Bem-Estar.

Neste país de ricos, onde a renda per capita anual ultrapassa R$100 mil, Copenhague é disparada a maior cidade de todas. A cidade possui atualmente cerca de 1.2 milhões de pessoas (mais de 20% do país) na sua Zona Metropolitana, sendo 550 mil na municipalidade de Copenhague propriamente dita. A segunda maior cidade do país é Aarhus (praticamente o porto de Copenhague), com apenas 250 mil habitantes. O resto da Dinamarca é formado majoritariamente por vilarejos de menos de 50 mil habitantes.

Em cidades, pessoas atraem pessoas: aglomeração populacional é o motivo pelo qual cidades existem, aproximando seres humanos e facilitando trocas e interações entre eles. Assim, Copenhague é o principal ímã populacional do país, onde estão as melhores opções de trabalho, educação, cultura e lazer, e onde os ricos dinamarqueses competem pelo recurso escasso que é o espaço urbano. Mesmo com restrições imigratórias ao país, a cidade prevê crescimento populacional seguindo a tendência global de migração das zonas rurais para os centros urbanos. Desenhada como uma joia preciosa, lá também há grande restrição no desenvolvimento das áreas centrais assim como de novos bairros periféricos, uma relutância geral para receber mais moradores. Qual o resultado de pouca oferta para muita demanda? O aluguel de um apartamento de um dormitório custa cerca de R$2600 por mês, sendo o m² médio para compra cerca de R$30 mil. O valor é equivalente ao preço de um imóvel de luxo na praia de Ipanema (talvez até com vista para o mar), em um mercado brasileiro que enfrenta suspeitas de bolha imobiliária devido ao crescimento recorde nos preços.

Assim, os planejadores “para pessoas” sofrem para criar mais oferta de imóveis sem modificar a sua estrutura urbana existente. Mudanças legais foram feitas para permitir apartamentos nos sótãos de prédios antigos, mas a opção tem limitações já que normalmente eles não possuem elevador. Aarhus, que também espera crescimento e sofre com falta de habitação, construiu contêineres para abrigar os estudantes que vem de fora. Em Copenhague, cidade que preza pela qualidade, isso é improvável. Enquanto alguns estudantes são obrigados a morar fora da cidade, impossibilitando o popular deslocamento de bicicleta e enfrentando altos custos de transporte, outros resultam à sacos de dormir: verdadeiros nômades dormindo em sofás de cidadãos amigosedifícios abandonados ou na reitoria da faculdade como forma de protesto.

Outra opção tem sido lentas expansões nas periferias através de desenvolvimento de bairros planejados por parcerias público-privadas. O primeiro grande projeto do bairro de Ørestad foi considerado uma falha pela falta de conectividade com a cidade original, embora tivesse grande controle pelos planejadores municipais. O segundo grande projeto, chamado de Nordhavn, pretende acomodar 40 mil pessoas até 2050, o que deixa a desejar: a cidade prevê uma entrada de mais 100 mil pessoas nos próximos 10 anos.

Copenhague encontra-se em uma encruzilhada: caso a cidade se espalhe, crescendo demais nas periferias sem aumento de densidade, não conseguirá sustentar a qualidade de vida com alto percentual de habitantes andando de bicicleta. Caso decida desenvolver sua zona central para acomodar os novos habitantes no centro também perderá sua qualidade de pequena cidade européia, além de alguns edifícios históricos. A terceira opção é tornar-se ainda menos acessível, congelando a estrutura urbana atual e forçando o aumento no preço dos imóveis. Imagine agora se a Dinamarca fosse um país acessível, finalmente abrindo suas portas para o mundo? Os problemas enfrentados pelo urbanismo de luxo seriam exponencialmente maiores, pois o rígido planejamento que a cidade atualmente propõe é incompatível para receber as centenas de milhares de pessoas que migrariam para a cidade.

Alguns dirão que Hong Kong, Cingapura e Nova Iorque tem qualidade urbana muito pior que Copenhague, e são igualmente caras mesmo com muita construção. A primeira resposta para isso é que elas já permitem que muito mais pessoas usufruam da cidade: o fato de terem dez ou vinte vezes o número de pessoas de Copenhague é um sinal de maior acessibilidade por si só. As 100 mil pessoas que a capital dinamarquesa espera para os próximos dez anos é o equivalente ao que cada uma dessas cidades espera receber em menos de dois: pessoas atraem pessoas. As três cidades situam-se em ambientes econômicos igualmente favoráveis à Dinamarca, aliados à políticas imigratórias muito mais flexíveis. Apesar de Nova Iorque fazer parte dos EUA, que se fechou para imigrantes nas últimas décadas, ela não só atrai os 300 milhões que vivem dentro do próprio país como faz vista grossa aos 500 mil imigrantes ilegais que lá residem, o equivalente à municipalidade inteira da Copenhague central. Ao mesmo tempo, as três cidades também cometem o erro de limitar seu estoque de moradia, um contra senso já que a aglomeração foi justamente o que as deixou atraentes em primeiro lugar.

Sim, Copenhague é uma cidade que funciona, e seu modelo é realmente um alto padrão de qualidade urbana. No entanto, assim como todo objeto de luxo que possui uma alta demanda com uma oferta limitada, ela se torna exclusiva, disponível apenas para um pequeno grupo de pessoas. Se existem críticas direcionadas à condomínios de luxo, altamente planejados e fechados em si próprios, a mesma crítica deveria se aplicar à Copenhague, que impede a entrada de novos moradores. As barreiras podem ser menos visíveis que cercas e muros logo na entrada, mas as fronteiras dinamarquesas e urbanismo restritivo da sua capital certamente geram o mesmo resultado. A “Cidade Para Pessoas” é uma cidade para poucos.

Anthony Ling é arquiteto e urbanista formado pela UFRGS e escreve para o blog Rendering Freedom.

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