Por dentro da cabeça de Putin: como a cultura delineia o que se passa na Ucrânia

por Maria Snegovaya (originalmente publicado no site mercadopopular.org)

 

Enquanto a crise na Crimeia continua sua escalada da violência, os analistas ocidentais buscam desculpas para explicar como eles erraram tanto em suas previsões. O problema é que esses acadêmicos, usando seus modelos da escolha racional, esqueceram que os objetivos escolhidos pelos atores são culturalmente delineados. Por que tão poucos analistas conseguiram prever a invasão? Pelo fato deles acreditarem que os principais objetivos do presidente russo Vladimir Putin são aumentar a integração russa com o mundo e aumentar seu poder econômico. Não seria essa, de fato, a única coisa racional a ser feita? Acontece que não é assim que Putin vê a situação.

A bibliografia recente sobre Putin corretamente chama a atenção para suas visões imperialistas pró-soviéticas. Lembre-se que, para Putin, o colapso da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Mas quais as implicações políticas de sua visão de mundo pró-soviética é algo que ainda é pouco compreendido.

Para começar a fazê-lo, o analista deve verificar quais são os livros de cabeceira de Putin. A biblioteca do presidente incluiu diversos filósofos nacionalistas russos do começo do século XX – Berdyaev, Solovyev, Ilyin – a quem ele frequentemente cita nos seus discursos públicos. Além disso, recentemente o Kremlin determinou que os governadores regionais devem ler as obras desses filósofos durante as férias de inverno de 2014. Os principais argumentos desses autores são que a Russia tem um papel messiânico na história mundial, que as fronteiras históricas da Russia devem ser preservadas e restauradas e que existe uma ligação fundamental entre a identidade russa e a Igreja Ortodoxa. Uma passagem de Ilyn vai ajudar a entender tais objetivos:

Aceitemos de antemão que a partilha da Rússia preparada pela comunidade internacional não tem qualquer razão de ser, ou quaisquer considerações políticas ou espirituais – salvo a demagogia revolucionária, um medo absurdo de uma Rússia unificada e a total aversão à monarquia russa e à Igreja Ortodoxa. Nós sabemos que as nações ocidentais não entendem ou toleram a identidade russa. Eles vão dividir a grande árvore da Rússia unificada em pequenos ramos para poder quebrá-los, um por um, ao tentar reacender a luz oscilante de suas civilizações. Eles precisam da partilha da Rússia para igualá-la ao Ocidente, e depois destruí-la: um plano de ódio e ganância de poder. (Ivan Ilyin, 1950, ‘What Does Russia’s Partitioning Mean to the World?’)

Esse pensamento é muito similar ao delineado por outro dos autores favoritos de Putin, que segundo rumores era muito popular dentre seu primeiro escalão: “O Terceiro Império: a Rússia do devir”, de Michael Yuriev. Trata-se de um romance utópico escrito como um livro de história da perspectiva de um narrador latino-americano no ano 2054.

O livro descreve como o cenário político de 2054 emergiu – e o processo guarda grande semelhança com os eventos contemporâneos na Ucrânia. Tudo começa com um período de aggiornamento entre 2000-2012, quando a Grande Rússia começa a ressurgir sob a liderança de Vladimir II, o Restaurador.  No livro, a Primeira Expansão da Nova Rússia ocorre quando as regiões Sul e Leste da Ucrânia se rebelam contra a Revolução Laranja, apoiada pelo Ocidente. Para ajudar os rebeldes ucranianos (que querem voltar a fazer parte da Rússia), Vladimir II oferece a possibilidade deles secederem da Ucrânia e tornarem-se parte da Rússia. Ele então leva a cabo um referendo nesses territórios e substitui a Federação da Rússia pela União Russa (uma União Aduaneira) que também incluiria a Bielorússia, Transnístria, Cazaquistão, Turcomenistão, Ossétia do Sul e Abcázia. Note que o livro foi publicado em 2006 (antes, portanto, da Guerra da Geórgia que culminaria na anexação de facto da Ossétia do Sul e Abcázia).

Ao que parece, o Presidente bielorruso Alexander Lukashenko também leu o livro, a julgar por sua pressa em retomar de imediato as negociações bilaterais com a União Europeia. Como o livro termina cabe ao leitor descobrir – eu não vou revelar nenhum spoiler aqui. Mas por mais difícil que seja acreditar na trama (por sinal, a invasão da Ucrânia parecia mais crível do que isso há uma semana atrás?), o livro nos traz bons insights sobre a psicologia de Vladimir Putin.

Pode parecer improvável, mas isso é exatamente o que o grande cientista político de Harvard Samuel Huntington previu em seu livro “O Choque de Civilizações”: alianças e guerras delineadas pelas distintas civilizações – Ocidental, Islâmica, Chinesa, Ortodoxa/Russa, etc. Note que a unidade Ortodoxa/Russa foi restaurada na Rússia. Em resposta ao chamado da Igreja Ortodoxa Ucraniana para que as tropas russas não avancem, neste sábado um representante da Igreja Ortodoxa Russa sugeriu que os ucranianos não deveriam resistir aos militares russos que objetivam “manter a paz”. A missão deles, como sublinhado, é a de “restaurar a histórica unidade russa”.

Isso ajuda a compreender o porquê dos analistas ocidentais continuarem a fazer uma leitura errada das motivações de Putin. Sua realidade é bem distinta da realidade na qual vivem tais analistas. Seu objetivo primordial é “restaurar os territórios históricos da Rússia” (qual dais versões específicas da Rússia história ele tem em mente é algo que descobriremos nos próximos capítulos). A parte mais triste de toda essa história é que a maior parte dos russos – influenciados pela mídia controlada pelo Kremlin – apoia as ações de seu presidente. Como demonstra a mais recente pesquisa de opinião do Levada-Center, uma parte substancial dos russos acha que os eventos em Kiev foram uma tentativa violenta de um golpe de estado (43%) e que os acontecimentos foram orquestrados pelo Ocidente para trazer a Ucrânia para sua órbita de influência (45%). Esses dados revelam que o conceito de choque cultural está sedimentado na mente dos russos.

Mas há também boas novas. A Ucrânia está, na verdade, muito menos dividida entre fronteiras Leste-Oeste do que o Kremlin gostaria que os outros pensassem. Durante o ápice dos protestos, o acampamento dos Maidan (os manifestantes contrários ao antigo governo ucraniano) em Kiev tinha barracas de toda a Ucrância.

Como indicam as estatísticas de mortes dos conflitos, os mortos durante a repressão policial comandada pelo Presidente Victor Yanukovych eram de distintas regiões da Ucrânia, inclusive as regiões orientais: Kharkov, Dnepropetrovsk, Zaporozhe e mesmo a região de origem de Yanukovych – Donetsk. Ourtas pesquisas mostram que 88% dos manifestantes vinham de fora da capital. Dentre estes, somente metade vinha das regiões ocidentais, enquanto a outra metade vinha das regiões central e oriental. Mais de 20% dos Maidan vinham da Ucrânia Oriental. Quanto à população da capital, mais de três quartos dos residentes apoiavam os manifestantes. Se há qualquer tendência, os dados mostram um consenso – e não um cisma – entre a população ucraniana.

Ademais, os dados do país como um todo também rechaçam a ideia de uma divisão cultural na Ucrânia. Uma pesquisa do Centro Razumkov mostra que ao fim de 2013 a maioria absoluta da população tanto na região central (dois terços) quanto na região ocidental (80%) da Ucrânia apoiavam os Maidan – o que, de fato, contrasta com 20% a 30% de apoio no Leste e Sul do país. Entretanto, a parcela da população que não expressou apoio aos Maidan continua indecisa quanto à alternativa. Não apoiar os Maidan não é equivalente a apoiar a Rússia ou Yanukovych. Isso pode ser visualizado pela opinião deles quanto aos Antimaidan (uma série de protestos pró-Yanukovych iniciado pelo governo em resposta aos Maidan). Somente uma minoria de ucranianos tomou parte nestes protestos (0,7% a 3%, a depender da região) e as reivindicações dos Antimaidan não tinham amplo apoio em nenhuma das regiões.

Contudo, preocupações quanto a tensões regionais ainda são plausíveis, dada a preponderência de uma mídia amplamente pró-Rússia nas regiões orientais russófonas. Durante os protestos, essa mídia sublinhou ativamente a narrativa do cisma cultural.

Na realidade, tal cisma se restringe à Ucrânia oriental – se tanto. De início, a própria base de Yanukovych (tipicamente composta de orientais) se encontrava dividida entre as opções de associação à Rússia ou à União Europeia – e mesmo sua região natal demonstrou atípicos sinais de pró-europeísmo. Mas Putin não conhece ou não acredita nesses dados – vez que, em sua percepção, elas tendem a “não ser confiáveis”, já que essas pesquisas são originárias de ONGs “financiadas pelo Ocidente”. Por tal motivo, a conquista pela restauração da Rússia histórica deve continuar num futuro imediato na Ucrânia Oriental. O Choque de Civilizações apenas começou – nem que seja, ao menos, na cabeça de Putin.

Maria Snegovaya é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Columbia e economista pela Escola de Superior de Economia de Moscou. Ela trabalhou para a Freedom House e para o Cato Institute, onde um dos editores deste Mercado teve o prazer de conhecê-la.

Traduzido por Carlos Góes.

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