Pobreza e ignorância: os melhores cabos eleitorais no Brasil

Por Mario Guerreiro (publicado originalmente no site www.institutoliberal.org.br)

 

O título deste artigo é uma paráfrase do de outro publicado na Folha de S. Paulo em 2/3/2014, a saber: Eleitorado de Dilma é o mais pobre e menos escolarizado.

Este, por sua vez, está baseado numa pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha abrangendo todo o território nacional.

Esta foi realizada entre 19 e 20 de fevereiro, junto a 2.614 pessoas, com uma margem de erro de 2 pontos.

Resumiremos o conteúdo do mencionado artigo da Folha, para posteriormente fazer nossa interpretação dos dados colhidos pela pesquisa.

De saída, o artigo procura caracterizar em breves traços o perfil do eleitor brasileiro:

“O típico eleitor brasileiro de 2014 tem entre 25 e 34 anos, possui ensino médio e renda familiar mensal baixa de até R$1.448. Mora na Região Sudeste, em município pequeno do interior, com menos de 50.000 habitantes.”

[Apenas uma breve observação: um indivíduo ganhando a referida quantia seria inserido na classe pobre pelos melhores economistas. Porém, de acordo com o fajuto critério do PT, quem ganha de R$ 200 a R$ 2.000 é considerado “classe média”. Uau! Nem que o Saci andasse de patinete!].

O artigo da Folha conclui acertadamente que esse eleitor típico tem justamente o perfil do eleitor de Dilma:

“Seus simpatizantes são os que reúnem as características mais parecidas com as do perfil social mais numeroso da população.”

Em outras palavras: a maioria dos eleitores brasileiros é pobre e semiletrada. Você já podia saber disso, mas é importante que uma pesquisa mostre isso num grande jornal para um grande número de leitores.

A inferência feita pelo artigo da Folha é logicamente impecável: “Dilma é a única cuja maioria absoluta de seus eleitores (51%) tem renda familiar mensal de até 1.448, o recorte mais baixo da estratificação e o grupo mais numeroso da população”.

O artigo passa, então, a apontar outro traço relevante da maioria desse eleitorado de Dilma:

(…) “É a baixa escolaridade: 44% deles têm ensino fundamental, 44% têm ensino médio, índices próximos do padrão mais freqüente na população”. Contudo, há uma característica fortemente destoante: a regional.

“Adeptos de Dilma são proporcionalmente menos numerosos no Sudeste e mais numeroso no Nordeste”. Você já podia saber disso, mas é importante que uma pesquisa mostre isso num grande jornal para um grande público.

O artigo afirma que os eleitores de Aécio Neves (PSDB) e Marina da Silva (PSB) estão situados no pólo oposto ao de Dilma.

Quase 30% dos eleitores de Marina têm ensino superior (com Dilma são 12%) e a maioria deles está em cidades grandes, com mais de 500 mil habitantes.

[Apenas uma breve observação: o que era de se esperar, uma vez que Marina é identificada como defensora intransigente da ecologia, e isto exerce forte apelo nos meios intelectuais e universitários].

Quanto aos simpatizantes de Aécio, estes se concentram na região Sudeste (57%) e há uma preponderância de um perfil “mais abastado”, segundo a expressão usada pelo artigo.

O que, de acordo com a interpretação deste mesmo, “sugere uma possível repetição das divisões de classe dos pleitos de 2006 e 2010”.

Pensamos que sugere também outra dicotomia:

Entre a relativamente próspera e possuidora de um razoável padrão educacional contrastando com a pobre e possuidora de um padrão educacional lamentável, ou seja: uma dicotomia entre as regiões Sudeste e Nordeste respectivamente.

O artigo vai mais longe apresentando o curriculum de dois eleitores típicos de Dilma e de Aécio em que os referidos contrastes saltam aos olhos:

Eleitor típico de Dilma é João André do Nascimento Filho, 23 anos, um profissional liberal que se dedica a consertar celulares e já declarou seu voto na candidata considerada por ele como “corajosa” e “prestativa”.

Morador de Madalena (CE), cidade de 18.000 habitantes e a 180 km de Fortaleza. Como ele recebe em torno de R$200 é um pobre, só considerado classe média pelo critério fajuto do PT.

O que ele ganha mal dá para pagar o aluguel de sua casa de dois quartos situada na periferia da cidade, mas sua renda é completada pelos R$130 mensais do Bolsa Família recebidos por sua mulher, Magda Crispim.

[Mesmo com esse adicional ele continua pobre, de acordo com um sério critério econômico, pois ganha cerca de metade de um salário mínimo].

Além de sua mulher, duas de suas irmãs também recebem o Bolsa Família. Segundo João André: “Se não fosse isto, toda minha família estaria passando fome”.

O que é a pura expressão da verdade nua e crua! Seriam miseráveis (em estado de “pobreza absoluta”, de acordo com a ONU), não pobres, como passaram a ser graças ao Bolsa Família.

A propaganda do PT vive dizendo que seu partido tirou 30 milhões da pobreza e colocou-os na classe média. Quando o fato é que tirou 30 milhões da miséria tornando-os pobres e pensionistas vitalícios do Estado. E isto para criar um grande curral eleitoral. É o neocoronelismo do coronel Lula.

Não é por nada que em campanhas presidenciais do PT um lugar-comum consiste em acusar o candidato da oposição em querer fazer algo que ele – por falta de coragem política – jamais faria: acabar com esse programa assistencialista do Bolsa Família.

Além de considerar Dilma “corajosa” e “prestativa”, João André a considera “bem intencionada”. Mas, para ele, o PT tem um projeto maior: o Bolsa Família criado por Lula e levado adiante por Dilma.

O depoimento do referido cidadão mostra claramente que – ao contrário do que muita gente pensa – o eleitor típico do PT de Lula e Dilma não é movido à ideologia, mas sim à barriga vazia. Potestas abhoret vaccuum, ventris idem (O poder tem horror ao vácuo, a barriga também).

Como tantos outros, João André dissocia Lula do Mensalão: “Os petistas presos não têm ligação com Lula. São pessoas que só queriam roubar. Lula e Dilma são diferentes” [“Eles só pensam no bem-estar do povo”, poderia ter acrescentado].

Neste ponto, o referido cidadão deve pensar o mesmo que o ministro Barroso, do STF, para o qual Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio et caterva “só queriam roubar”.

Porém não formaram uma quadrilha, como qualificaram Joaquim Barbosa e outros ministros do STF. E o Lula “não sabia de nada”, conforme ele próprio declarou. M’engana qu’eu gosto!

Passemos agora ao eleitor típico de Aécio.

Júlio Rocha, 32 anos, funcionário público. Ao contrário de João André, ele deseja mudanças no cenário nacional e considera Aécio Neves o melhor candidato para realizar tal coisa.

Acha que Aécio é o candidato que mais se aproxima de suas ideias fundamentais: para minha total perplexidade, estas são: “defesa de um Estado mínimo e pouco intervencionismo”.

Quanto ao Estado mínimo, esta é uma antiga proposta típica do liberalismo, para o qual o Estado é essencial nas funções que só ele deve exercer – segurança nacional, segurança pública, fornecimento de Justiça, saúde pública, etc.

Mas é inteiramente dispensável em funções que devem ser exercidas pela iniciativa privada. Não há lugar para o Estado-empresário, assim como não há para o Estado-babá. “Pouco intervencionismo”? Melhor seria nenhum

No entanto, tenho minhas dúvidas se Aécio pretende mesmo pô-las em prática, como minha querida Maggie Thatcher corajosamente pôs.

O surpreendente Júlio Rocha, nascido em Brasília, é um técnico em Sistemas de Informação e em Contabilidade. Começou a fazer curso de Direito neste ano e pretende fazer concurso para Procurador. Mora em Vicente Pires, um bairro de classe média do Distrito Federal.

Embora toda sua família seja petista, ele declarou que suas referências culturais e políticas o levaram a se distanciar da opção de seus parentes.

Ao contrário de um quinto dos jovens brasileiros, que não trabalham nem estudam, Júlio Rocha trabalha e estuda.

Sai de casa por volta das 6h e segue para a faculdade. Saindo da faculdade, encara sete horas de trabalho na assessoria de comunicação de um órgão federal.

De tudo isto, poderíamos dizer que o lema norteador de sua vida é: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por você mesmo”.

* * *

Publicado em plenos Festejos de Momo, quando a mídia está toda voltada para o carnaval, este artigo da Folha é de grande importância para uma boa compreensão do cenário pré-eleitoral.

Além de seu aspecto conjuntural, ele chama nossa atenção para uma situação constituída muito antes dos governos do PT, coisa que eles só contribuíram para seu agravamento.

Lembro-me muito bem que, desde a década de 60 do século recém-passado, alguns intelectuais e comunicadores brasileiros já chamavam a atenção para as péssimas consequências podendo resultar do descaso com a educação.

Coisa esta sintetizada no título deste artigo: “Pobreza e Ignorância são os melhores cabos eleitorais do Brasil”.

Lembro-me como se fosse hoje: até um mesmo colunista social sem grande brilho intelectual – como era o caso de Ibrahim Soída – costumava fechar seu programa na TV dizendo coisas tais como: “Cavalo não desce escada” e “Educação: Vergonha Nacional”.

Estamos agora colhendo os frutos de nosso menosprezo pela educação, desde o curso básico até a universidade.

Não concordamos com a ideia de que a pobreza é causa do mau sistema educacional. Países mais pobres do que o Brasil têm uma educação melhor do que a brasileira. Estão aí mesmo o Chile e o Peru, membros da Aliança do Pacífico, só para não me deixar mentir.

Mas é inegável que pobreza e educação – tanto a formal como a informal recebida em casa – andam sempre juntas.

Países como a Finlândia, o Japão e a Coréia do Sul estão sempre nos primeiros lugares no ranking internacional da qualidade do ensino.

Por outro lado, estes mesmos são países prósperos em que não há miseráveis – os que se encontram na condição de pobreza absoluta, segundo a terminologia da ONU – e poucos são pobres nesses países.

Países que têm um PIB situado entre os 10 maiores do mundo – como é o caso do Brasil, o 6.o mundial – não significa que sejam ricos, mas sim que possuem um desenvolvimento regional desigual, ou seja: regiões bastante prósperas como o Triângulo Mineiro e Ribeirão Preto (SP) coexistindo com bolsões de pobreza, como o Vale do Jequitinhonha (MG) e o Polígono das Secas (Nordeste).

O que a pesquisa mostra claramente é que o eleitorado do PT e de Dilma concentra-se justamente nestes bolsões de pobreza, que são também bolsões de baixa escolaridade. Reafirmando, assim, a ideia de que miséria e ignorância andam sempre juntas, lamentavelmente.

Não se trata de uma simples relação de causa e efeito, mas sim de uma causalidade circular e de um círculo vicioso difícil de ser rompido.

A pesquisa também comprova a ideia de que o perfil desses eleitores – que constituem a maioria do eleitorado – não é o do eleitor mobilizado por qualquer ideologia política, mas sim pela mais cruel precariedade de vida.

Isso não anula a ideia de que Dilma e o PT possuem um grande número de eleitores movidos por uma ideologia esquerdista, gente da classe média real, não da classe média fajuta dos dados maquiados e da propaganda enganosa do PT.

No entanto, a maioria dos eleitores de Dilma e do PT possui um problema muito mais premente para resolver: a dura luta pela sobrevivência material, incapacitados que estão de conseguir um emprego melhor, em virtude de sua baixa escolaridade. Este é um caso em que a deficiência educacional gera a miséria.

Alguns deles simplesmente não têm emprego e sobrevivem, a duras penas, graças à mesada do Bolsa Família, outros possuem um subemprego fazendo biscates ou atuando como camelôs.

Mas não importa. De acordo com outro critério fajuto do PT, são considerados igualmente empregados tanto os que recebem o Bolsa Família como os “flanelinhas” das ruas e os “desalentados”, isto é: os que se cansaram de procurar emprego e não mais procuram.

Não é de causar espécie o “pleno emprego” propalado pela falsa propaganda do PT, coisa de fazer de Goebbels um aprendiz de ofício.

De acordo com a estatística “criativa” do PT, temos um índice de 6% de desemprego, menor do que o dos Estados Unidos e da Alemanha!

M’engana que eu gosto! O índice correto deve estar próximo ao da Espanha ou da Grécia. Algo por volta de 20%.

Mas reservei para o fim a pergunta crucial: Como é que, com a maioria do eleitorado nas condições descritas pela pesquisa do Datafolha, podemos esperar uma mudança de cenário?!

Dilma teria que ser muito mais incompetente do que realmente é para não ganhar logo no primeiro turno…

Mais do que nunca vale citar Lord Acton: “Todo povo tem o governo que merece”.

Além disso, um eleitorado do Haiti não pode aspirar a ter representantes da Finlândia.

Nossos políticos são legítimos representantes do nosso povo. São mesmo a cara do povo: ignorantes, semiletrados e corruptos.

Que fazer? Mudar de governo? Não, mudar de povo!

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