PT, PSDB e a Retórica do Ódio: “Agora é guerra”

Por Lu Silveira

Observar as redes sociais durante o período eleitoral tem sido um exercício de resistência e de paciência. A histeria dos seguidores das duas facções políticas que disputam o posto máximo da República tem travado a civilidade e a cortesia, em si bem raras na virtualidade.

“Agora é guerra”: famílias, amigos e colegas de trabalho se dividem em bons e maus conforme sua preferência política. Ser neutro e apolítico significa apoiar o inimigo, ser um inocente útil ou permissivo com a corrupção. Ser libertário significa ser idiota, na acepção grega do termo: aquele que não participa dos assuntos públicos. Um elemento paranoico faz as vezes de análise de discurso. Tudo tem sido examinado à exaustão e de forma parcial, da cobertura da mídia aos materiais de campanha.

A objetividade ficou do lado de fora e o poder político interpretado como expressão da livre opinião e consentimento – a visão de Hannah Arendt – ficou restrito ao Weber revisitado: a violência coercitiva para obrigar os indivíduos à discussão, ao engajamento, à participação no debate político, sob pena de serem julgados alienados, apáticos e até mesmo apelidados de paulistas ou de nordestinos – duas naturalidades que se tornaram sinônimos para tudo o que há de mais atrasado e retrógrado no país. Falar mal dos primeiros é ser antenado, falar dos segundos é ser preconceituoso – e assim vamos nos acostumando na esfera pública com as discriminações seletivas, mas nem por isso menos odiosas.

Enquanto se discute a corrupção (essa pauta política tão antiga quanto a profissão mais antiga do mundo) não se discute o modelo de representação política que possibilita a formação de máfias travestidas de partidos políticos. Enquanto se debate a nova política – proposta vaga que significa governar em aliança com o refugo partidário – não se fala no presidencialismo de cooptação que tem sido adotado no Brasil redemocratizado. O debate político do segundo turno se restringe aos rótulos e às divisões em grupos e classes, divisões reais ou imaginárias, entre as pessoas que nasceram nesse território e que compartilham, vivendo em solo pátrio ou não, dessa comunidade de destino.

Divide et impera à parte, esse acirramento político poderia ser interpretado como um robustecimento da democracia brasileira: afinal, apenas quando o todo é forte o suficiente, pode-se tolerar a divisão em partes, sem esgarçar o tecido social. Talvez isso seja verdade nas ruas e nas casas, essas duas sínteses dos espaços públicos e privados. Mas apesar dessas divisões, a intolerância predomina nas redes sociais e, de certa forma, alija as pessoas do debate público. O efeito é reverso: não agrega, afasta. No nível em que estão as militâncias nesse FlaxFlu político, se assemelham mais a torcedores organizados ou a capoeiras do espaço virtual, distribuindo pancadas e juízos de valor a respeito do caráter alheio. A luta do Bem contra o Mal – essa nostalgia da infância, quando tudo era assim bem simples – está se transformando em jihad politica conclamada pelos dois partidos e seus coligados.

Agora é guerra. Depois do dia 26 ela acaba para nós, os eleitores, deixando a ressaca dos pedidos de desculpas e (talvez) alguma vergonha pelo comportamento anterior. Aos que se elegerem e aos que debandarem para o lado vencedor, será o esperado momento de repartir os espólios – entre eles, apenas para eles.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s