PT: Inimigos, inimigos por todos os lados

Por Lu Silveira

O grande problema de se ver (ou inventar) inimigos por todos os lados é que, em algum momento, até mesmo os aliados passarão a ser encarados com desconfiança. A paranoia só faz sentido para o paranoico e seu terapeuta. Fechado em si mesmo e apostando na rosa mística do marketing político, o PT comete erros em cima de erros, afundando-se com os dois pés nessa campanha pelo segundo turno presidencial. Não contente em rotular os eleitores de um grande colégio eleitoral de reacionários, surpreende e ataca aqueles votantes que de “elite branca” não têm nada, questionando a legitimidade de seu voto no partido de oposição (sic). Justo no momento em que mais precisa de suas bases políticas originais.

O que motiva esse texto? Além das pesquisas do Instituto Paraná e do Sensus terem sido questionadas oficialmente pelo partido da candidata da situação e da recusa em permitir perguntas dos jornalistas no debate organizado por (dentre outros) Folha de São Paulo, chama a atenção uma petição no Avaaz para que a candidata não participe no debate dos candidatos à presidência organizado e transmitido pela Rede Globo. Este é o momento em que os militantes do partido aplaudem, sem atentar para alguns detalhes:

1. Nenhuma pesquisa de nenhum instituto acertou os percentuais de votação do primeiro turno, mesmo aquelas divulgadas às vésperas da eleição do dia 5 de outubro. Seria o caso de ter pedido explicações a respeito da metodologia de todos os institutos, não de um ou dois. O que me lembra: e o Vox Populi?
2. Não permitir perguntas de jornalistas, sejam da Folha de São Paulo ou não, é inócuo. O partido está na linha de tiro por conta de escândalos de corrupção; isso em si atrai cobertura midiática, goste-se ou não. Cresci no final dos anos 1980 acompanhando com gosto e voracidade as coberturas sobre os dossiês que circulavam em Brasília – poder e corrupção são intrinsecamente fascinantes na esfera federal.
3. Permita-me lembrá-los que a corrupção, essa pauta política tão antiga quanto inútil em nosso modelo político, não atrapalha todos os candidatos da mesma forma – Alckmin e Lula que o digam. Participar de um debate não significa ser pautado, vide o rap battle entre Armínio Fraga e Guido Mantega – o ministro poderia ter sido levado às cordas, mas colocou seu opositor na defensiva.
4. Negar-se a participar de um debate televisionado tradicional, mas que a esmagadora maioria dos brasileiros não acompanha ao vivo, sinaliza medo. Ganha-se nada além do apoio dos militantes e eleitores que já votariam no partido de toda forma. O W.O seria justificado pela petição no Avaaz, em si mesma justificada pelo debate Lula e Collor que teve sua edição assumidamente manipulada em 1989,; pelo fato da emissora ser da família Marinho e sinalizaria enfim a possibilidade de dar uma banana pra mídia, uma vez que o controle social (ainda) não decolou. De novo: isso pega muito bem com quem já vota na candidata. Mas para os demais eleitores, parece medo.

Ao desconstruir a imagem de Marina Silva, o PT perdeu uma adversária do mesmo campo ideológico. Vê-se frente a frente com um candidato de um partido de oposição (sic) incapaz de ocupar um espaço significativo à direita no espectro político. Vota-se no PSDB mais por rejeição e por falta de um partido político relevante, seja ele liberal clássico ou conservador. E ainda assim, o PT perde-se em meio aos problemas crônicos: a aposta em uma candidatura pouco orgânica, vítima da falta de renovação de quadros políticos ou, pior ainda, em função de ter seus principais quadros políticos em veraneio na prisão.

Livrar-se da pecha de corrupto não é difícil. Não se perde eleição (apenas) por isso. Mais difícil será livrar-se do rótulo de covarde. Como dizia um “estrategista” do futebol: o medo de perder tira a vontade de ganhar.

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