O Brasil que você não vê nos debates

Por Guilherme Dalla Costa (publicado originalmente no site clubefarroupilha.com)

            Os debates entre os candidatos à Presidência da República nestas eleições são hollywoodianos de várias maneiras: primeiro, por que tem tanto momentos cômicos quanto trágicos; segundo, por que o que dizem são ficções decoradas, quando muito com alguma inspiração na realidade; e terceiro, por que podem passar em outro canal, mas a história é a mesma. Os marketeiros de campanha do Partido dos Trabalhadores fazem um esforço grandioso para comparar o Brasil de 2012 com o de 2002 e, desonestidade estatística à parte, as coisas realmente melhoraram. Faço um convite, porém, para renovar a discussão: vamos comparar o Brasil de 2002 com o de 1990?

O maior programa social de todos os tempos

            Fora as denúncias de corrupção, as discussões entre os candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff, dignas de um programa de auditório, se focam na paternidade do Bolsa Família. Não pretendo entrar nos meandros da moralidade e eficácia do programa, mas acho curioso quão pouco se fala em um outro programa social que o Brasil conheceu. Seu nome é Plano Real, e diferente dos programas posteriores, ele não tira de ninguém, nem dá para alguém; ele coloca todos em pé de igualdade. Vejamos os resultados:

decil

Explicando os dados para que possamos analisá-los: um decil equivale a 10% da população, o primeiro decil sendo os 10% mais pobres, o segundo sendo os 10% seguintes, e assim segue. A renda per capita está corrigida para valores de 2009. Podemos ver nessa tabela três coisas interessantes:

  1. Restauração do poder de compra: se olharmos da segunda à quarta colunas, veremos que o maior avanço na renda, em todos os casos, se deu entre 1990 e 1995 – quando a inflação caiu de 763,12% ao ano, como em 1994, para 14,77%. Isso significa que quem não tinha acesso ao sistema bancário, os mais pobres, não teria mais seu poder de compra corroído; a diferença para os mais ricos (9º e 10º decis) foi baixíssima.
  2. Enriquecimento desproporcional: como se observa na quinta coluna, que compara a variação da renda entre 1990 e 2002, os rendimentos por setor cresceram a taxas decrescentes. Traduzindo do economês para o português, os pobres enriqueceram muito mais rápido do que os ricos. O efeito, portanto, foi de desconcentração de renda.
  3. A desigualdade caiu: como efeito do fim da inflação e do aumento da produtividade do período, a diferença da renda entre os decis caiu rapidamente. O que se vê na última coluna é a diferença de renda de um decil da população em relação ao próximo, em um mesmo ano. Em 2002, vários grupos atingiram praticamente a mesma renda que o grupo superior em 1990, e no caso mais expressivo – na desigualdade de renda do 6º para o 7º grupo -, a diferença caiu em 15,81%.

É de surpreender, quando os dados são analisados dessa maneira, que isso não seja usado como argumento mais vezes nos debates eleitorais. Não surpreende, por outro lado, a presidente Dilma Rousseff ter escrito em 2011 uma carta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elogiando seu governo.

A tabela levanta outra curiosa questão: não parece contraditório a atual presidente dizer que seu compromisso com o emprego e a renda do brasileiro é maior do que seu compromisso de lutar contra a inflação?

O primeiro governo do povo

            No debate e nas campanhas vemos também a demonização de todos os governos que precederam o PT, sendo Armínio Fraga um dragão e Luís Inácio Lula da Silva um São Jorge. “Nosso governo tirou tantos milhões da pobreza, hoje pobre anda de avião” e etc. Novamente, é difícil negar os avanços sociais de 2002 para cá. Mas e antes? Mais uma vez, aos dados:

decil pobreza

Se estendêssemos a série, veríamos que a pobreza e extrema pobreza estavam na década de 70 mais ou menos no mesmo nível que em 2002, mas começaram a subir para incríveis 43 e 20% entre 1986 e 1993. Para entendermos o efeito dessa redução na miséria e pobreza de forma menos abstrata, pode se observar neste relatório da EMBRAPA que o período representado na tabela coincide com um aumento expressivo do consumo de leite e derivados. “Pobre andar de avião” e “empregada usar perfume de madame” pode ser mais glorioso, mas as pessoas humildes não terem mais dificuldade para dar leite aos seus filhos é mais importante. A queda nos preços do leite é, por sinal, também mérito da abertura, privatização e flexibilização do setor, coisa raramente mencionada. E o que mais melhorou?

decil outros

Esses são outros dados muito menos abstratos. Os três primeiros indicadores, referentes ao sistema escolar no país, são resultado da expansão do investimento nesse setor e do Bolsa Escola, predecessor do Bolsa Família e que, junto com a restauração do poder de compra, fez com que os jovens não precisassem mais abandonar a escola para sustentar suas famílias.

Os outros três dados são as porcentagens de domicílios com televisão, carro e telefone, que nos mostram que, independente do que se diga nos debates para fomentar medo na população, o aumento da taxa de juros e o crescimento limitado não significam que “não se farão mais compras a prazo”, como argumentou um dos candidatos. Isso são reflexos, novamente, da abertura do mercado e das privatizações. A icônica privatização da Telebrás, em 1998, nos mostra o impacto rápido que a flexibilização do mercado, mesmo no caso de um setor tão oligopolizado, tem sobre a vida da população.

A lição, 20 anos depois

            Antes do que um apelo ao governo do PSDB, a intenção deste texto era mostrar que todas as conquistas dos últimos três mandatos presidenciais não foram um mérito em si, mas uma tendência iniciada há décadas por uma série de reformas econômicas implementadas por governos anteriores. Sabendo disso, fica o receio: se chegamos até aqui por causa de reformas econômicas e monetárias, o que acontecerá se pararmos?

A honestidade que devemos cobrar dos políticos vai além da corrupção. Ao exporem dados pela metade ou fazerem análises estatisticamente incorretas, induzem o eleitor ao erro – o que só é crime eleitoral quando os partidos de oposição fazem. No fim das contas, vimos nos últimos anos o nascimento de um novo tipo de político. Ao invés dos ultrapassados, que “roubam mas fazem”, ou que “prometem e não fazem”,  surgiram os políticos que não fazem, mas levam o crédito por quem fez.

As tabelas, de elaboração própria, foram construídas a partir de dados disponíveis no site do IPEAData, estes mesmos uma compilação de dados do IBGE, e na maioria das seções consultadas por mim as fontes eram, especificamente, os PNAD e PSDS. Tratam-se, portanto, de dados oficiais do Estado.

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