Dilma e os perigos inflacionários de 2015

dilma-inflaçãoPor Mateus Maciel

A inflação não dará descanso aos brasileiros no próximo ano. Erros na política econômica do atual governo e pressões externas podem fazer com que a inflação fique novamente acima do teto da meta de 6,5%. Para que isso não ocorra, duras reformas – porém urgentes – precisam ser feitas, mas será que Dilma está realmente disposta a arcar com esse custo político?

O perigo que vem de fora

Se antes o governo culpava a crise internacional pelo baixo crescimento da economia brasileira, em 2015 ele realmente terá que ficar atento aos perigos do exterior. A tão esperada recuperação econômica dos EUA fará com que o FED mude a sua política monetária, que consiste numa injeção cavalar de moeda na economia do país e redução da taxa de juros, que atualmente está em 0,25%.

O programa adotado se chama quantative easing e vem sendo usado para recuperar a economia norte-americana. O Banco Central, através dessa política de expansão monetária, comprou títulos em poder dos bancos para que estes tivessem mais dinheiro disponível para emprestar.  Com isso, desde 2008, o FED comprou (leia-se injetou na economia) mais de US$4 bilhões em títulos, elevando a base monetária do país, como pode ser visto no gráfico a seguir.

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Base monetária dos Estados Unidos

Curiosamente, após essa expansão monetária, a inflação não subiu. Um monetarista, ou um austríaco mais observador chegaria à conclusão de que tal fato não ocorreu, pois os bancos não emprestaram o dinheiro que receberam pelos títulos, devido ao baixo nível de confiança na capacidade de pagamento dos correntistas.

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Inflação nos Estados Unidos

O foco do texto não é analisar se o programa deu certo ou não, mas sim os reflexos do mesmo no Brasil. O governo americano já considera finalizar o programa de expansão monetária, uma vez que o ritmo de crescimento da economia do país, bem como o mercado de trabalho, estão voltando aos padrões pré-crise. Entretanto, isso significaria aumentar a taxa de juros.

Segundo um estudo do banco Morgan Stanley, o Brasil pertence ao grupo dos “Cinco Frágeis”. Composto por África do Sul, Turquia, Indonésia e Índia, esses países possuem moedas mais sensíveis a mudanças na economia global, devido aos seus altos índices de inflação e déficit em transações correntes. Logo, uma mudança na política monetária norte-americana afetaria diretamente o Brasil.

Com a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos, os investidores internacionais tirariam seus dólares daqui para aplicar em títulos do tesouro norte-americano. Tal fato faria com que o real se desvalorizasse frente ao dólar, mesmo que o Banco Central fizesse intervenções no câmbio, como tem feito recentemente para manter a taxa em um patamar “competitivo”. Por mais que o país possua uma grande quantidade de reservas internacionais, a autoridade monetária daqui dificilmente as queimaria tentando lutar contra as forças do mercado.

Com o real desvalorizado, os produtos importados ficam mais caros, bem como produtos produzidos aqui, mas que utilizam componentes de fora. Dessa forma, esse aumento de preço nos produtos elevaria a inflação de preços, como ocorreu em 1999.

Os erros internos

No front interno, o país precisa fazer reformas na área fiscal e monetária. A política econômica do atual governo, chamada de Nova Matriz Econômica – que consiste em uma política expansionista de estímulos à economia, aumento do crédito subsidiado e taxa de câmbio controlada – se mostrou um fracasso do ponto de vista do crescimento econômico. Desde que foi adotada, os gastos do governo subiram fortemente, a base monetária (M1) foi elevada, a inflação ficou fora do centro da meta e o PIB teve fraco desempenho.

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Base monetária do Brasil

Na política monetária, o Banco Central não possui independência operacional, e ajudou na expansão fiscal do governo, através da redução forçada da taxa de juros. Tal fato acabou por contribuir para o endividamento das famílias, bem como para o aumento da inflação.

Por mais que no campo social as políticas tenham avançado, as mesmas não cresceram o suficiente por conta da instabilidade econômica. A substituição do tripé macroeconômico – que consistia em metas de inflação, contenção de gastos e câmbio flutuante – pela Nova Matriz Econômica foi uma enorme guinada em prol do descontrole fiscal.

No curto prazo, os efeitos dessa política são bons, apesar das distorções que podem ser sentidas por qualquer brasileiro médio. Entretanto, no longo prazo, os ganhos conquistados podem ser perdidos, principalmente no que se refere ao aumento da renda e redução do desemprego. A questão da inflação, portanto, deveria ser tratada com mais cuidado nesse segundo ano de governo Dilma, pois os brasileiros mais pobres são os que mais sofrem com a elevação dos preços.

Analisando o principal índice de inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em diferentes períodos é possível chegar a algumas conclusões. Separei os componentes do IPCA e adicionei a desvalorização do câmbio até agora.

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Fonte: BCB/Portal das Finanças

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IPCA 2

Fonte: BCB/Portal das Finanças

Os serviços monitorados (gás, luz, gasolina, preço de remédios, preço de serviços prestados pelo governo, tarifas de transporte público e etc.) não dependem diretamente da variação cambial. Durante o governo Dilma, é possível notar que o aumento dos mesmos foi muito menor do que na gestão de FHC. Isso foi feito para que o atual governo segurasse a inflação, mas isso onerou a Petrobras e as empresas ligadas ao setor de energia, gerando danosos a essas companhias. Ano que vem, o mercado espera que o governo já reajuste esses preços, o que elevará a inflação.

Quando comparamos a elevação dos preços dos bens duráveis (máquinas, equipamentos e etc.) é possível notar uma grande diferença. Como muitos desses produtos são importados, o câmbio é uma variável importante na composição dos preços dos mesmos. Tanto que, no período atual, a desvalorização cambial média foi de 7,55%, enquanto que no período entre 1999 e 2002 foi de 22%. Com isso, o preço dos bens duráveis subiu, respectivamente, 0,66% e 8,57%. Logo, quando o FED elevar a taxa de juros e o real se desvalorizar em relação ao dólar, a elevação dos preços dos bens duráveis (muitos deles importados) contribuirá para o aumento do IPCA.

Quando comparamos as variações de preços dos bens semi duráveis (calçados, roupas e etc.), não duráveis (alimentos) e dos serviços podemos chegar a outras conclusões. Por mais que a variação cambial tenha impacto no preço de produtos não duráveis importados, a maior parte das importações é de bens intermediários, bens de capital e bens de consumo duráveis, como podemos vem no gráfico a seguir.

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Portanto, podemos chegar a conclusão de que o aumento dos grupos de bens semi duráveis, não duráveis e dos serviços se deve ao aumento da demanda por estes, nos últimos anos. Como um dos pontos da Nova Matriz Econômica é a expansão subsidiada de crédito, via bancos públicos, o crédito ao consumidor subiu fortemente durante o governo Dilma, o que elevou os gastos dos brasileiros, como podemos ver nos gráficos a seguir.

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Crédito ao consumidor brasileiro

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Gastos do consumidor brasileiro

Essa expansão de crédito por parte dos bancos públicos fez com que a demanda por produtos aumentasse. O problema é que esse aumento da demanda não foi feito a partir do aumento de poupança dos brasileiros, mas com crédito barato subsidiado pelo governo. Esse modelo calcado no consumo se esgotou, uma vez que o brasileiro médio está com 45% de sua renda comprometida com o pagamento de dívidas. Ainda assim, mesmo com o consumo em alta, a confiança dos empreendedores vem caindo durante toda a gestão de Dilma.

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Confiança dos empresários brasileiros

O que deveria ser feito

Depois de quase 8 anos de políticas econômicas heterodoxas que se mostraram inflacionárias e danosas ao crescimento econômico do país, é hora de voltarmos à ortodoxia adotada no primeiro mandato do governo Lula e durante o governo FHC. Na época em que Antônio Palocci era ministro da Fazenda, o petista formou uma equipe econômica composta por profissionais respeitados no meio público e privado.

Henrique Meirelles foi chamado para comandar o Banco Central. Duro nas suas decisões, Meirelles teve autonomia para manter os juros elevados, fazendo com que as expectativas de inflação ficassem controladas. Entretanto, com a saída de Palocci do ministério, por conta de escândalos de corrupção e de Meirelles do BC, o tripé macroeconômico foi simplesmente esquecido.

O governo precisa assumir que a Nova Matriz Econômica falhou e voltar a utilizar o tripé, que trouxe estabilidade à economia do país. Logo, o mesmo precisa reduzir o papel dos bancos públicos, reduzindo a quantidade de crédito por eles emprestada. Além disso, o mesmo precisa cortar gastos e elevar juros, por mais impopular que essas medidas sejam. O problema é que tais políticas reduziriam a atividade econômica e elevariam o desemprego, no curto prazo. Entretanto, no longo prazo, a mão de obra desempregada seria absorvida, a inflação estaria novamente controlada e o PIB voltaria a crescer.

Outro problema recorrente é a questão da infraestrutura, que onera os produtores, fazendo com que os custos sejam repassados para os consumidores. O governo fez concessões de estradas, aeroportos, portos e etc. Contudo, o modelo adotado controlava demais o lucro dos investidores interessados. Tal fato fez com que a procura fosse baixa, impendido que os projetos decolassem.

O mercado, entretanto, espera um ajuste leve por parte do governo, até mesmo por conta do perfil da presidente Dilma. Segundo fontes próximas a presidenta, Dilma, por ser economista, costuma controlar essa área com mais rigor. Dessa forma, ela acaba por não dar autonomia aos seus ministros e não escuta assessores. Seus “gurus” são os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Antônio Delfim Netto (economistas com desempenho pífio quando ocuparam cargos no governo).

Logo, por mais que a equipe econômica seja trocada, se a mesma não for de qualidade, não for respeitada pelo mercado e não tiver autonomia, dificilmente os agentes econômicos reduzirão as expectativas de inflação. Dessa forma, os sindicatos seguirão pedindo aumentos salariais acima do centro da meta de inflação, o que fará com que os empresários elevem o preço dos seus produtos também. Se continuarmos nesse rumo, a indexação vai seguir aumentando.

Conclusão

O ano de 2015 não será fácil para o Brasil, principalmente no que se refere ao controle da inflação. Durante décadas o país inteiro lutou contra ela, pagou a conta de governos irresponsáveis e viu os mais loucos planos econômicos mudarem suas vidas. Mesmo com a implementação do Plano Real, que trouxe estabilidade à economia, o brasileiro teve que engolir remédios amargos, como desemprego e juros altos.

As conquistas daqueles tempos estão ameaçadas. A política monetária dos EUA ameaça a já gripada economia brasileira e as políticas econômicas do atual governo estão deixando o paciente doente, sendo que lentamente. Pior que isso, o governo não dá o remédio amargo para que esse se recupere.

O Brasil precisa fazer reformas imediatas para que o poder de compra da população não seja corroído pelo processo inflacionário. Por mais que estas sejam impopulares e gerem desemprego, do que adianta a taxa de desemprego estar “baixa” se daqui a alguns meses as pessoas conseguirão comprar cada vez menos produtos quando forem ao supermercado?

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