A face libertária do Taoísmo

55Por Esther de Ávila

Tudo o que se escreva ou até mesmo que se pense sobre Tao será impreciso e precário, porque Tao é a Realidade Absoluta, Insondável e inacessível ao nosso conhecimento humano e finito. Para a filosofia monista chamada Taoísmo, o conceito de Deus-pessoa, comum nas interpretações mais populares empreendidas pelas igrejas católica, protestante e judaica, não corresponde à ideia do Deus cósmico, plasmado e revelado em todas as existências, a Consciência Universal, a Causa.

Para a cultura taoísta, o Eterno, o Uno, não é alguém com quem podemos nos relacionar, solicitar benesses ou mesmo imaginar. Vários gênios da humanidade, como Jesus Cristo, pensavam na Divindade desta forma monista, tal qual a filosofia que ora estudamos: tudo está em Deus e Deus está em tudo.

O que se depreende do livro fundamental do taoísmo, o Tao Te Ching – obra tida como tendo sido escrita por Lao-Tsé aproximadamente no século VI a.C. e que consiste numa transcrição de aforismas chineses milenares – é que para sentir, conectar-se ou integrar-se à Consciência Cósmica, não é necessário qualquer intermediário, sacerdote ou o uso de hábitos religiosos como frequentar templos ou participar de ritualísticas. Infere-se da literatura taoísta mais antiga que a integração se dá pela harmonização com o Universo, o que é um traço notadamente individualista – e, ao mesmo tempo, libertador – da filosofia.

Não é difícil compreender o porquê de o taoísmo haver sido reprimido e seus adeptos perseguidos na Revolução Cultural de Mao-Tsé-Tung e nos primeiros anos da República Popular da China.

Nesta toada, a despeito de o verdadeiro propósito da filosofia distar enormemente de qualquer discussão política, vale a pena a leitura de trechos de três dos 82 poemas do Tao-Te-Ching, os quais discretamente apontam para a importância da liberdade na sociedade e de um estado não-intervencionista como facilitadores da evolução espiritual individual:

“POEMA 37 – HARMONIA PELO NÃO-AGIR

Tao não age,

E por esse não-agir tudo é agido.

Se reis e príncipes assim fizessem,

Todas as coisas do mundo prosperariam por si mesmas.

E se, mesmo assim, os homens tivessem desejos,

Tao os satisfaria pela simplicidade

Do seu íntimo ser.

Quem se une ao Uno não tem desejos,

Onde não há desejos há paz.

E onde há a paz, tudo é harmonia e felicidade.”

“POEMA 57 – AGIR NÃO AGINDO

Pela retidão se governa um país.

Pela prudência se conduz um exército.

Mas é pelo não-agir que é regido o Universo.

Donde sei que assim é? É evidente por si mesmo.

Quanto mais proibições existem, tanto mais o povo empobrece.

Destrói-se toda a ordem quanto mais os homens procuram os seus interesses pessoais.

Prepara-se a revolução, quando os homens só pensam em si mesmos.

Abundam ladrões e salteadores, quando o governo só confia em leis e decretos, para manter a ordem.

Pelo que diz o sábio: Não intervenho! E eis que por si mesma Prospera a vida na sociedade.”

“POEMA 60 – UM BOM GOVERNO SUPÕE VISÃO CÓSMICA

Governar um grande reino é tão fácil

Como dar liberdade a um peixinho […]”

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