Mais uma vez a Petrobras e o Pré-Sal.

images-c-77-c77c0201ba35b5635c1775e7f64ef8b60c3371e4Por Roberto Ellery (publicado originalmente no site rgellery.blogspot.com)

 

A Petrobras não é apenas a maior empresa brasileira, é uma empresa que controla uma área estratégica para o país. O petróleo é o principal insumo do mundo moderno, não apenas é fonte de energia como é insumo básico para a produção de vários produtos químicos e outros materiais, por exemplo, o petróleo é matéria prima para a produção de plástico. Problemas com a Petrobras significam problemas para economia brasileira. Por esta razão o derretimento do valor da Petrobras tem sido objeto de debates e recebe muita atenção da imprensa e também deste blog. Nos últimos cinco anos o preço da ação da Petrobras negociada na Bolsa de Valores de Nova York caiu quase 79%, quem comprou por US$ 50,18 em 13 de novembro de 2013 se vender hoje, 11/11/2014 conseguirá US$ 10,65. A figura abaixo mostra o comportamento do preço das ações da Petrobras na Bolsa de Valores de Nova York nos últimos 10 anos (todos os dados de preços de ações são do Google Finance).

Repare que houve um crescimento até junho de 2007, neste mês ocorreu uma queda rapidamente seguida por uma recuperação que levou o preço a um recorde de US$ 72,38 em maio de 2008. Em dezembro de 2008 o valor estava próximo a US$ 18, a queda ocorre no período da Crise Financeira de 2008. Depois do auge da crise o preço volta a subir, no final de novembro de 2009 passa de US$ 51. A partir daí começa o processo de queda até que chegue aos atuais US$ 10,65. Como explicar esta história? Antes de tentar será útil olhar para os preços de outras empresas. Escolhi a ExxonMobil, de acordo com o ranking da Forbes (link aqui) é a única das cinco maiores petroleiras do mundo que não está sob controle estatal. A primeira do ranking é a Saudi Aramco (Arábia Saudita), a segunda é a Gazprom (Rússia), a terceira é a National Iranian OIl Co. (Iran), a quarta é a ExxonMobil e a quinta é a PetroChina (subsidiária da China National Petroleum Corporation, uma semiestatal chinesa). No ranking a Petrobras fica na 14º posição. Por ser privada vou assumir que a ExxonMobil representa de alguma forma a tendência do mercado e não o desejo de governos.

A figura abaixo ilustra o comportamento do preço das ações da ExxonMobil na Bolsa de Valores de Nova York. Repare que assim como a Petrobras as ações sobem de forma consistente até o período anterior à crise e caem de forma brusca durante o período da crise. Porém a partir de 2010 o preço começa uma tendência de alta que segue até os dias atuais. A PetroChina, semiestatatal, também apresenta um aumento forte até o período anterior à crise, cai durante crise e depois torna a crescer, porém pouco, e fica estabilizada. Chevron, Total e Shell apresentam comportamento semelhante ao da ExxonMobil, porém com queda nos últimos meses, padrão que é seguido pela BP, porém com uma queda forte em 2010 seguida de rápida recuperação. Enfim, enquanto a valorização no período anterior à crise e a queda durante a crise seguiu uma espécie de padrão a tendência de queda que a Petrobras seguiu nos últimos cinco anos não parece ser algo do mercado, está mais parecido com algo com a empresa. Para que não fiquem dúvidas a respeito da tendência a figura ao lado mostra o preço das ações da Petrobras nos últimos cinco anos.

O que poderia ter causado a queda? Se fosse um fenômeno recente, como nos casos da Chevron, Total, Shell e BP poderíamos dizer que foi a queda no preço do petróleo. A figura abaixo mostra o preço do petróleo (West Texas Intermediate, WTI), na esquerda estão os últimos seis meses, a tendência de queda é clara, na direita estão os últimos dez anos. Note que o aumento significativo do preço no período anterior à crise coincide com o aumento nos preços das ações das petroleiras, note também que não existe uma tendência de queda que venha desde 2010. Se não foi o preço do petróleo, o que foi? Uma resposta rápida seria culpar o governo Dilma e o uso político que foi feito na empresa. É uma causa possível, mas não fico satisfeito de pensar que um setor que opera em países como Iraque, Irã, Arábia Saudita, Rússia, Nigéria e Venezuela fique intimidade com as instituições brasileiras. Não ficaria surpreso se na maioria destes países ocorrer tanto ou mais intervenção do governo do que no Brasil, mesmo o em tempos petistas. Seria um problema com o Brasil? Também não considero provável, petróleo é commoditie, aliás, não ficaria surpreso se uma redução da demanda no Brasil melhorasse a situação financeira da Petrobrás. De toda forma fui olhar as ações da AMBEV, embora tenha tido queda de quase 15% nos últimos cinco anos está longe dos 79% da Petrobrás. A Embraer aumentou 86,5% nos últimos cinco anos, por outro lado a Vale teve queda de 67,5%, bem grande, mas ainda menor que a Petrobras.

A verdade é que não estou convencido que o problema da Petrobrás seja apenas a ingerência política (escrevo antes de saber a extensão da investigação que a Petrobrás está sendo alvo nos EUA, a depender do que a justiça americana concluir o custo do uso político da Petrobrás pode ficar gigantesco) nem seja o desempenho da economia brasileira. Cada vez mais desconfio que o problema da Petrobrás é o pré-sal. Já comentei aqui no Blog a respeito dos custos do pré-sal (link aqui), a Petrobrás afirma que o pré-sal é viável com o preço do barril entre US$40 e US$45, especialistas pelo mundo duvidam dos números da Petrobrás. Alguns desconfiam do verdadeiro volume de petróleo na área, talvez lembrem do grupo X, outros questionam os custos de transporte e outros custos não diretamente ligados à extração.

Não sou engenheiro nem geólogo, também não tenho acesso a relatórios técnicos sobre o pré-sal, mas olho o mercado e vejo algo que não fecha. Leio que com o barril abaixo de US$ 80,00 a extração de petróleo em partes do Golfo do México ficaria inviável, o mesmo aconteceria com o “oil sands” do Canadá e o “shale gas” dos EUA, mesmo a Rússia teria problemas com o barril abaixo de US$ 65,00. Já li até teorias de conspiração dizendo que a Arábia Saudita está forçando o preço para baixo para quebrar a turma do “shale gas”, cavar areia parece ser fácil, o petróleo da Arábia Saudita seria viável mesmo com o barril a US$ 15,00. Como entender que a Petrobras encontre um “oceano de petróleo submerso” a custo de extração relativamente baixo e ainda assim esteja perdendo valor de mercado? Na minha avaliação o mercado já deixou claro que não compra as estimativas da Petrobrás de custo médio de extração do pré-sal.

Se minha avaliação estiver certa, há um bocado de especulação nela, podemos estar com sérios problemas. O comportamento do preço do petróleo nos últimos dez anos sugere que a atual tendência de queda pode ser uma volta aos preços pré-2005 e não um movimento passageiro, muitos analistas no exterior trabalham com a hipótese que a queda do preço veio para ficar, as próprias tecnologias poupadoras de energia reforçam tal visão. O Brasil é um país que investe pouco, nossa taxa de investimento está entre as mais baixas do mundo, se nossa grande aposta de investimento se mostrar inviável estaremos em maus lençóis. Se além disto a aposta afundar nossa maior empresa e comprometer a energia no Brasil podemos ter sérios problemas no futuro próximo.

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