Bolsonaro e o Conservadorismo que eu Rejeito

BOSTONAROPor Gabriel Vince (do site http://anarquista-reacionario.tumblr.com/)

 

Antes de começar esse texto gostaria de apresentar logo no início o meu posicionamento político, moral e filosófico: eu me considero conservador. Antes de jogarem paus e pedras nos comentários dizendo que é mais uma crítica “à esquerda” ou “libertária” ao desditoso e desventurado deputado, tenham isso em mente, eu me considero conservador e farei uma crítica sob uma perspectiva conservadora ao deputado Jair Messias Bolsonaro.

Breve introdução de conservadorismo

Apesar de toda categorização ser limitante (e as vezes estúpida) podemos categorizar o pensamento “conservador”, basicamente, com a aceitação da existência de princípios que resistem ao tempo, na crença (muitas vezes religiosa, mas não somente) de que existem valores universais marcados pela imutabilidade e que esses valores são bons e se mantém acima de quaisquer ventos culturais ou modismos de época.

Quando falamos que alguém é “conservador” não deveríamos dizer que é uma pessoa avessa à mudanças, estamos falando de uma pessoa que acredita que mudanças são possíveis, mas que deve observância à princípios e valores que habitam patamares superiores e que apenas podem ser arranhados pela alta cultura (cultura aqui no sentido clássico, de impulso a perfectibilidade) ou pela religião.

A falta da observância desses elevados princípios e valores foram analisados por um político “whig” chamado Edmund Burke. Suas reflexões sobre a Revolução Francesa (Reflections on the Revolution in France, 1790) apresentam sua visão da humanidade que trocou os valores elevados pelas utopias revolucionárias da época e, como isso, desaguou num furioso, insano e tresloucado banho de sangue e totalitarismo.
Outro pensador que fez uma análise parecida foi o americano Russel Kirk (The Conservative Mind, 1950), numa perspectiva mais historicista do que filosófica. Foi Kirk elaborou os famosos “Dez Princípios Conservadores”, que seriam princípios que todo bom conservador deveria se pautar.

O perfil do Bolsonaro

Quando Kirk categorizou os “10 princípios conservadores” ele enfocou numa característica especial, a “prudência”. A prudência é o verdadeiro remédio contra a sanha revolucionária. Antes de “guardar, proteger e conservar o que é bom” (Goethe) e “ser reacionário contra tudo aquilo que não presta” (Nelson Rodrigues) o bom conservador deve ser, antes de tudo, prudente.

Podemos considerar Jair Messias Bolsonaro prudente? Bem vejamos o que este polêmico político diz:

1911673_778296452217168_9024305095031329484_nBem, deu pra perceber que “prudência” não é muito bem o seu forte.

Sua linguagem, sua “soluções” para os problemas não é em nada diferente daquela ânsia jacobina, da ideia do terror revolucionário centrado na ideia de que o meio é justificável como “crime criador” (uso aqui uma expressão do marxista Zizek) do universo de lei e ordem que ele quer instaurar e, aos corruptos, só resta o puro e simples paredão (isso te lembra de alguma coisa?). Não há nada nisso tudo que um bom conservador não possa criticar, ou, pelo menos, problematizar.

Jair Messias Bolsonaro ainda é dono de outra citação polêmica:

Ter filho gay é falta de porrada.”

Vamos contrapor isso com o ensinamento de uma instituição que está acima de qualquer suspeita em termos de “conservadorismo”, a Igreja Católica, que em seu catecismo, no número 2358, diz o seguinte:

Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.”

Percebem a diferença? Dado isso podemos concluir que Bolsonaro não é o único exemplo de conservador e, pessoalmente, não acho ele ideal espelho para quase nenhuma das minhas posições.

Outros “conservadorismos” possíveis

Temos liberdade para buscar outros referenciais e nos afastar das figuras mais caricatas. Mesmo para alguém que se considera conservador o próprio conservadorismo pode ser objeto de crítica. Minha maior inspiração é o escritor G.K. Chesterton, um inglês gorducho e bonachão que trata suas posições abertamente conservadoras e religiosas com tanta leveza, delicadeza, bom-humor e liberdade que o mais acabrunhado ateu-marxista é capaz de se deliciar na leitura de seus livros e (queria Deus) rever suas próprias posições.

O próprio Chesterton, em sua obra magna, Ortodoxia, que ataca genialmente quase que a totalidade do pensamento moderno a favor do Cristianismo, se arriscou em criticar também algumas posições conservadoras.

Vemos isso no capítulo VI (A Eterna Revolução) que diz o seguinte:

A teoria conservadora seria, na realidade, completamente radical e sem resposta se não fosse por esse único fato (aqui ele se refere a corrupção do mundo). No entanto, todo conservadorismo se baseia na ideia de que se deixarmos as coisas entregues a si mesmas, elas ficarão como estão. Mas não é isso o que acontece. Se deixarmos uma coisa entregue a si mesma, a deixaremos entregue a uma torrente de mudanças. Se deixarmos abandonado um poste branco, logo ele ficará preto. Se quisermos que ele se conserve branco, temos de estar sempre repintando-o; isto é, somos obrigados a fazer sempre uma revolução. Em poucas palavras: se queremos conservar o antigo poste branco, temos de preparar um novo.”

Se até Chesterton critica algumas posições conservadoras o que dirá eu. Não precisamos ser partidário da cantilena reacionária “Bandido Bom é Bandido Morto” por defender a supremacia das instituições. Podemos até mesmo ser contra a Pena de Morte, como o conservador e religioso cristão ortodoxo Dostoievski que considerava a pena de morte uma subversão tremendamente imoral até mesmo para um criminoso que tirou a vida de um inocente, tudo baseado numa sensibilidade genuinamente cristã e, obviamente, uma forte experiência biográfica.

Conclusão

Eu recomendo trocar Bolsonaro por Chesterton e Dostoievski, mas seja livre para se achar conservador e questionar conservadores, inclusive os que eu indiquei.

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10 comentários sobre “Bolsonaro e o Conservadorismo que eu Rejeito

  1. Eu não critico, mas faço uma pergunta a alguém que está se julgando conservador; você, o escritor deste artigo. Se Bolsonaro não é um exemplo de conservadorismo atual, quem seria?

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    • É muito fácil achar bons comentadores conservadores mas infelizmente são poucos os autores aqui no Brasil hoje.

      Atualmente é muito difícil apontar um ou outro, gostando ou não o Olavo de Carvalho é ainda o que melhor representa o pensamento conservador hoje no Brasil, e o José Osvaldo de Meira Penna (embora não tenha lido quase nada dele).

      Mas estão surgindo outros (e talvez melhores) que, entretanto, ainda não tem obra publicada (Francisco Razzo, Gustavo Nogy e Flavio Morgenstern são alguns exemplos).

      Como o próprio Olavo disse uma vez, um bom pensador conservador é um cara que não apenas ataca a esquerda, mas que se esforça para compreender a realidade, enfrentando as questões maiores da alta cultura e não apenas as polêmicas do dia.

      Algumas dicas de pensamento “liberal conservador” clássicos no Brasil pode vir Joaquim Nabuco, João Camilo de Oliveira Torres, Leonel Franca, Gustavo Corção, Paulo Mercadante.

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      • “Olavo de Carvalho é ainda o que melhor representa o pensamento conservador hoje no Brasil”
        Concordo! Inclusive com o fato que Olavo postou o seguinte no facebook dele:
        “Perguntam-me o que penso do deputado Jair Bolsonaro.
        Quando eu era pequeno, meu pai fazia comigo a seguinte gozação:
        — Pai, em quem você vai votar para presidente?
        — Adhemar de Barros.
        — E para governador?
        — Adhemar de Barros.
        — E para deputado?
        — Adhemar de Barros.
        E assim por diante.
        Pois eu, sem gozação nenhuma, digo que votaria em Jair Bolsonaro para todos os cargos. Há muitos homens valentes neste país, mas ele é o mais valente de todos. Posso discordar dele num ou noutro ponto, mas tenho a certeza de que é um homem honrado e nunca decepcionará seus eleitores.”
        (link: https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10152698411617192 )
        Está na hora de acabar com esse separatismo e juntar forças, Bolsonaro pode não ser o ideal mas ainda é o melhor que temos na casa, unica oposição verdadeira, então altero sua frase do seguinte modo:
        “Bolsonaro é ainda o que melhor representa o pensamento conservador hoje no Brasil”
        Sim, ele é, dentro da câmara! Concordo que ele está longe do ideal, e tudo mais, mas não podemos ignorar que ele é quem melhor representa o conservadorismo na Câmara e devemos apoia-lo como oposição ao desgoverno criminoso do PT.

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  2. Ele nem de longe peca pela prudência. Já disse que não se importa em ser taxado disto ou daquilo injustamente – se quer continuar uma carreira pública era bom se importar.

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  3. Bolsonaro tá longe de ser o ideal mesmo, mas se não fosse por ele muitas coisas absurdas do congresso nem chegariam a publico, e ele aponta problemas corretamente, o problema está nas soluções que ele apresenta para estes problemas, mas se não fosse por estas soluções polemicas a situação alarmante não chegaria ao publico geral.
    Bolsonaro trouxe vários jovens para a direita, e levou muitas pessoas a se preocupar com coisas que não se preocupavam antes.
    E o fator mais importante é que ele foi por muito tempo a unica voz real de oposição no país, ele era como colocam corretamente: “um exercito de um homem só”.
    Você pode não concordar com ele, mas precisamos dele! Não estamos em uma situação normal no país, um extremo pede o outro, e não tem nem como comparar a força de Bolsonaro com a da oposição, perto disso ele é apenas uma voz no congresso.
    Sejamos mais espertos, não é hora de se dividir a população nem se voltar contra a unica oposição real e de coração que temos, por mais distante do nosso ideal que ela seja, é o que temos, lutemos para termos outros representantes mais sensatos, mas enquanto não temos precisamos de Bolsonaro, e ele é muito bem vindo por fazer o que acredita por coração, por amar nosso país e não por interesses egoístas. Ele pode não ter as ideias mais maduras, mas é uma oposição real a algo pior e mais forte, é um homem corajoso e de caráter e devemos apoia-lo neste momento em que infelizmente, precisamos.

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  4. Bolsonaro é mito, ele é o único parlamentar que é oposição real contra esses governo socialista-comunista, se não fosse pela combate forte dele contra os projetos do atual governo , eles estariam muito mais avançados nos seus planos gramscistas de destruição da nação.O ÚNICO que esfrega a verdade na cara desses facínoras da esquerda que SEMPRE lutaram por ditadura em nossa país e na América Latina agora tambem de um 20 anos pra cá.

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  5. Pingback: Democracia: o “mal” ainda necessário | fordies

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