Filho

Diorama-Living-together-in-Paradise-2Por Felipe Svaluto Paúl, que escreve de vez em quando aqui @svalutopaul e ainda mais de vez em quando aqui Warfare State

_ Insuportável. Completamente insuportável.

_ Ele é uma criança.

_ Uma criança insuportável, completamente insuportável. O prédio é cheio de crianças, nenhuma outra desse jeito.

_ O prédio também é cheio de adultos…

_ Só faço o meu trabalho.

_ A piscina está fechada há meses, gente de fora usa a musculação e o zelador deu em cima da prima do Seu Esteves. Seu trabalho é só implicar com o meu filho, parece.

_ Seu filho já agrediu o zelador, entrou na musculação e fez xixi na piscina – e ela já estava fechada, ele invadiu e fez o xixi.

_ Eu tive que atender uma ligação do trabalho, me distraí.

_ Ele agrediu um morador também, o senhor Francisco, vizinho do Esteves, no elevador. Vai dizer que não? Tava distraída também?

_ Ele é criança, mas sabe quem não gosta dele. O zelador e esse senhor Francisco sempre o trataram mal.

_ E isso justifica?

_ Não. Mas ele é criança ainda. Está sendo educado. E coloquei no psicólogo.

_ Todo mundo vai ao psicólogo hoje, daqui a pouco vai dizer que ele tem alguma coisa. Hiperagressividade, hipersensibilidade… Aí mesmo que não vou poder falar nada, vai ser mais um doente.

_ Que comentário sensível. Você vai ao psicólogo?

_ Não. E obrigado. Mas e o salão de festas? Não quis ser acusado de nada e liberei o aluguel – e ele e os amiguinhos destruíram as cortinas, o piso, o som. Dois pararam no hospital. Osso quebrado.

_ Criança se machuca mesmo. E acidentes acontecem. Ninguém morreu e já paguei tudo.

_ Depois que a gente adiou o aniversário do filho do Esteves…

_ Já conversei com eles também. Entenderam – estão mais incomodados com outra coisa, sabe?

_ Sei, faz parte do tal do meu trabalho. Ah: ele agrediu um coleguinha no play também. Desculpem, tive que fazer uma lista… Estava esquecendo.

_ Já falei que ele é uma criança, né? O senhor não tem filhos, mas é assim mesmo. O coleguinha roubou o brinquedo dele, faltou educação aí pra essa criança maravilhosa do prédio – mas no dia seguinte eles já tavam bem, brincando normalmente de novo. Criança é isso, brigam e ficam de bem o tempo todo.

_ E o pai?

_Como?

_ O pai. Quantas vezes visita por mês?

_ Duas.

_ Não tenho filhos, mas… É o mínimo obrigatório, não?

_ É. Pois é, um pai relapso, mais um. Isso talvez até ajude a explicar algumas coisas, não?

_ Explica. Explica que ele é insuportável. Até pro pai.

_ Você é inacreditável. Olha como ele tá quieto hoje. Tá todo mundo vendo. Não abriu a boca.

(E era verdade: antes da audiência ele até andou um tanto pelo lugar, sentou em vários bancos, interagiu com o guarda, brincou animadamente com um boneco meio velho – mas foi a coisa começar e parou, numa calma, diria alguém, inacreditável).

_ Você o treinou pra isso aqui, só pode. E se conseguiu, pode conseguir que se comporte melhor também em ocasiões menos solenes.

_ Posso e vou, mas sem que ele deixe de ser criança.

_ Deixa pelo menos de ser insuportável?

_ Meritíssimo, por favor?

_ Senhora, senhor… Já ouvi demais mesmo. Os senhores já passaram por duas tentativas de conciliação, acho que vamos realmente ficar por aqui. Levantem-se, por favor.

Levantaram-se.

_ Senhora: longe de mim querer me colocar contra a infância, mas a senhora não pode usar a idade como desculpa pra tudo que ele faz. Quantos anos? Esqueci, perdoe. São os meus anos…

_ Quatro pra cinco, Meritíssimo. Quatro e sete meses.

_ Então, senhora – ele ser só uma criança não vai durar pra sempre… E não sei se você está efetivamente conduzindo o processo tão bem assim, pelo que ouvimos das partes. Portanto, sem me alongar, teremos você e ele no Conselho Tutelar pelos próximos três meses, pelo menos… Uma vez por semana, em horário e local a serem marcados quando a senhora sair daqui. Entendido?

_ Entendido, sem problemas. Mas e ele? É ele é que está em julgamento.

_ O senhor, como eu já estava pra dizer, não pode chamar amor de alguém de insuportável numa reunião de condomínio – menos ainda aqui, na minha frente e mais de uma vez. Erros foram cometidos, sem dúvida, e eu já indiquei que a mãe receberá ajuda profissional além do psicólogo – mas nem muitos erros justificam outro… Mas seria a primeira vez do senhor, não?

_ Seria.

_ Então não temos razão para nada tão drástico – somos educativos, antes de tudo, e um erro não justifica erro de juiz também. Ficamos assim: sessenta horas de vídeos e palestras para ajudá-lo a se controlar e mostrar mais consideração para com entes queridos alheios. Entendido?

_ Entendido.

_ Agradeço então aos senhores pela vinda e podem se retirar, por favor.

 

E a senhora se ergueu, puxou o filho e se pôs a sair do tribunal – e eis que ele, a causa de tudo aquilo, ele que verdadeiramente se comportara bem até aquele ponto, como vimos, de repente, inteiramente de repente e já na porta da sala, para e se abaixa.

E a senhora constrangida começa um “ele é só…”, interrompe, tira um saquinho da bolsa, faz o que precisa fazer, pede desculpas e sai, puxando a coleira.

_ Mais alguma coisa, senhor?

_ Como se adota um pastor alemão mesmo?

 

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