A política partidária nacional está num estado decrépito

Por Uriel Alexis

À extrema direita, temos os arroubos de saudosistas da ditadura, nacionalistas ufanistas, e demais conservadores que desejam, antes de qualquer coisa, que as hierarquias sociais de outrora voltem a reinar, e as que existem permaneçam. O “sucesso” da última da última Marcha da Família demonstra bem o estado desse lado do espectro.

Similarmente, na extrema esquerda, temos partidos que se entregaram ao favoritismo e ao peleguismo sindical, esquecendo do que um dia significou ser “sindicalista”, ou uma miríade de opiniões desconexas, sem discurso e em grande parte sem fundamento. Quando até quem se diz “anarquistas” é leniente com o poder estatal, há algo errado com o socialismo. (Não que haja nada especificamente de errado com o radicalismo, apenas com o radicalismo que não se atém às suas raízes, com o radicalismo hipócrita e vendido).

Fora isso, o mainstream político brasileiro se concentra numa posição auto-intitulada “centro-esquerda”, mas que seria melhor descrita como “poder pelo poder”. Nesse ponto do espectro, não se questiona onde o estado deve agir, está pressuposto que ele deve agir e interferir em tudo: educação, saúde, infraestrutura, uso de recursos, habitação, segurança, escolhas individuais e o que mais. Nem tampouco se questiona como o governo deve agir: centralizada e burocraticamente.

Os dois “lados” (se é que pode se chamar assim) da moeda concordam sobre praticamente todas as questões básicas: temos que ter mais escolas, mais hospitais, mais estradas, mais lazer, mais cultura, mais comércio, mais impostos, mais regulamentação, mais leis, mais fiscalização, mais segurança, mais polícia, e assim por diante. Não se toca nas questões polêmicas e essenciais, como aborto, a legalização das drogas, reforma política e agrária, que poderiam efetivamente mudar alguma coisa. Os partidos só se diferenciam em questões paliativas: o PT quer(ia?) mais bolsa família e mais cotas, o PSDB quer continuar seu programa de privataria. Defensores de um consideram o “neoliberalismo tucano” (livremente definido para incluir basicamente qualquer coisa) como a doutrina do diabo encarnada, defensores do outro consideram o “petismo” como a nova Ameaça Vermelha, a raiz de todos os males. Dados os anos de governo de cada lado, em um certo nível, todos estão um tanto certos.

Tentar olhar para “intelectuais formadores de opinião” de cada lado só vai dar dor nos rins. Normalmente apenas elucubram sobre questões banais de ordem pessoal, por vezes citando seus pensadores favoritos (sim, todos homens), e tecendo teorias sem qualquer fundo de realidade. Quando se atrevem a falar algo prático, defendem o indefensável e se colocam como paladinos da justiça.

Dada situação deplorável, eu poderia, como muitos, concluir, com a direita, que o Brasil não tem salvação e temos todos que fugir o quanto antes do “bananal” e quem sair por último que feche a porta. Ou eu poderia concluir, com a esquerda, que o Brasil não tem salvação e temos que apelar pra revolução armada agora. Discordo de ambos os lados.

O Brasil tem salvação, creio eu, mas ela não está na política partidária, está na política popular. Ela está na relações diárias das pessoas comuns umas com as outras. Vocês, todos vocês, que não estão nos círculos de poder nem nos debates intelectuais, vocês pessoas comuns que têm seus interesses, suas opiniões, suas ansiedades e medos, vocês são quem vão fazer a real revolução. E ela vai ser relativamente simples: quando vocês disseram “hoje não”, e deixarem de abaixar a cabeça e estender a mão ao mestre, quando com suas criatividades e inteligências se recusarem a dialogar com patifes, ladrões e terroristas.

Sim, a libertação carrega consigo o fardo da responsabilidade. E não vai ser fácil organizar e construir voluntariamente qualquer coisa que seja, especialmente após séculos de escravidão consentida. Mas, por grande que seja o esforço, o resultado não tem preço. Afinal, a liberdade é coisa inestimável.

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