Por que o aumento da taxa de investimento entre 2003 e 2011 não trouxe crescimento?

Por Roberto Ellery (publicado originalmente no site rgellery.blogspot.com)

Uma das explicações para atual crise que vivemos é que o modelo econômico implantado pelo petismo focou apenas em consumo e esqueceu o investimento. A explicação tem fundamento no fato que nossa taxa de investimento é uma das mais baixas do mundo. Porém a análise dos dados brasileiros não permite concluir que o período de bonança da primeira década do século XXI não viu um aumento do investimento, pelo contrário, no primeiro trimestre de 2003, quando Lula tomou posse, a taxa de investimento era de 14,43% do PIB no quarto trimestre de 2010, último trimestre dos governos Lula, a taxa de investimento era de 18,55%. No terceiro trimestre de 2011, já no governo Dilma, a taxa de investimento alcançou 19,20%, o maior valor desde 1991. A figura abaixo mostra o comportamento da taxa de investimento (os dados foram obtidos no Ipeadata).

O aumento da taxa investimento foi um padrão da primeira década do século XXI, a única interrupção ocorreu quando da crise de 2008, mas a recuperação veio de forma rápida. Foi este aumento da taxa de investimento que fez com que diversos economistas apostassem que o governo Dilma seria marcado por altas taxas de crescimento (lembram do governo do PIBão?). A certeza era tão grande que muitos economistas se recusavam a ver que o crescimento não vinha e começaram a elaborar explicações cada vez mais complexas para a falta de crescimento. Como era possível o aumento na taxa de investimento não levasse a um crescimento do PIB?

A pergunta não é tão fácil de responder. Tanto os modelos de tradição neoclássica quanto os modelos de tradição keynesiana relacionam aumento da taxa de investimento com aumento da taxa de crescimento da economia, pelo menos no médio prazo. O que deu errado? Passei a atentar para esta questão depois de um debate no IPEA onde eu argumentava que estávamos caminhando para uma crise e o outro economista, um técnico do BNDES, defendia a tese contrária. O debate foi em 2010 e os dados estavam quase todos contra minha tese, só os dados de produtividade me davam razão, na época falar de produtividade soava esquisito, coisa de neoclássico. O aumento da taxa de investimento foi o dado escolhido para defender a tese que os próximos anos seriam de fartura. Na hora retruquei falando de produtividade e argumentei que o aumento do investimento na década de 1970 não impediu a grande crise da década de 1980.

Findo o debate tentei refletir como encaixar o aumento da taxa de investimento na minha história que estávamos caminhando para uma crise. A pista estava em um texto que escrevi juntamente com a Mirta Bugarin e o Victor gomes e que foi publicado na Brazilian Review of Econometrics em 2005 (link aqui). Lá tratamos do investimento desperdiçado, ou seja, do esforço de investimento que não vira capital. Existem muitos fatores que causam desperdício de investimento, na época tínhamos em mente corrupção e obras inacabadas. Porém o raciocínio pode se aplicar a projetos de baixíssimos retornos como alguns estádios da Copa e as aventuras do Grupo X, aliás boa parte dos investimentos da Petrobras no pré-sal podem acabar na conta de desperdício de investimento.

O fato do esforço de investimento ocorrido entre 2003 e 2011 não ter sustentado o crescimento nos anos seguintes aponta fortemente na direção da tese que houve desperdício de investimento no Brasil. Qual a razão do desperdício? Não é fácil responder, mas as condições de investimento no Brasil são muito propícias para a ocorrência do fenômeno. Temos um grande banco financiador de investimento, o BNDES, que é sujeito a interferência política e costuma agir como se o investimento fosse um fim em si mesmo. É juntar a fome com a vontade de comer. O empresário amigo quer financiamento barato, os inquilinos do planalto querem ajudar os empresários amigos, afinal campanhas e voos de primeira classe são caros, e a tecnocracia acredita que aumentar a taxa de investimento é o caminho para o crescimento. Preocupação com eficiência e retorno? Bobagem, coisa de economista neoclássico que não conhece a realidade.

Naturalmente podem existir outras explicações para que o aumento da taxa de investimento não tenha gerado crescimento, da mesma forma podem existir outras explicações para o desperdício do investimento no Brasil. Porém uma coisa é fato, não é possível dizer que o modelo petista estimulou consumo às custas de investimento, houve aumento da taxa de investimento o que não veio foi o crescimento. A lição me parece clara: não basta investir, é preciso investir bem.

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