A cultura da liberdade no cinema de samurai

Muitos dizem que a arte reflete a sociedade. Uma artista mexicana chamada Betsabeé Romero, de forma mais elegante, uma vez disse que “a arte é o termômetro da história”. O cinema não escapa dessa responsabilidade. Para André Bazin, um famoso crítico e teórico de cinema, o cinema é a “arte do real” pois registra a espacialidade dos objetos e os espaços que eles habitam. Não apenas isso mas ele registra o momento histórico e o background cultural no tempo e no lugar de onde é filmado.
O escritor Siegfried Kracauer, em sua análise dos filmes alemães que antecederam o nazismo, publicada na década de 1950, afirma que os filmes refletiam de forma única o funcionamento da sociedade. Segundo ele isso se deve a dois fatores principais: primeiro por ser uma atividade coletiva e não individual, segundo porque os filmes são geralmente feitos para grandes audiências, devendo, portanto, refletir e satisfazer os desejos das massas.
A história do cinema no Japão se inicia em 1899 e, desde essa época, vem refletindo os desejos e valores da sociedade japonesa. Notamos aqui a enorme influência ocidental no Japão, falar cinema no Japão já é, necessariamente, falar de influência ocidental no Japão, uma coisa não se destaca da outra.
Infelizmente a produção cinematográfica do Japão nessa época se perdeu devido ao Terremoto de 1923 e o Bombardeio Aliado de Tóquio durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, anos mais tarde, com a grande popularidade conseguida, o cinema japonês se reergueu e tornou-se especialmente produtivo.

Em meio a esse renascimento do cinema japonês um gênero específico se torna muito popular, o Chambara, ou Cinema de Samurai.

Apesar do nome “cinema de samurai” uma coisa interessante é notar que quase nenhum protagonista do gênero é, de fato, um samurai, ou é um samurai com características muito peculiares. Os filmes geralmente tem como protagonista o Ronin, o espadachin andarilho e sem mestre, o “samurai” que não seguia a um daimyo, e tem um motivo muito especial para ser assim.

Devemos notar aqui a influência da cultura liberal ocidental no Japão. Todos os filmes de samurai no Japão nessa época foram influênciados pelo cinema Western norte-americano.

Assim como nos Westerns americanos, no Cinema Chambara temos a recorrente figura do herói individual, que tem seu próprio código ético, e prefere seguir suas demandas pessoais morais em detrimento da estrutura da cultura do direito e da lei que considera injusta. Temos histórias onde o indivíduo é valorizado pela luta que estabelece com o seu meio e onde os códigos de honra individual se sobrepõe a lei, onde se estabelece uma hierarquia social assente na tradição política.

A preferência do Ronin ao Samurai tradicional reside ai. O Samurai deve obediência a estrutura social e política da tradição, o Ronin é liberto disso e apenas deve obediência ao seu próprio senso de justiça, que pode ou não convergir com a estrutura social vigente (geralmente não).

Abaixo dois exemplos de filmes que refletem isso.

Toshiro Mifune em Rebelião

Toshiro Mifune em Rebelião

Rebelião (Jôi-uchi: Hairyô tsuna shimatsu, 1967)
Direção: Masaki Kobayashi
Sinopse:
Obra-prima de Masaki Kobayashi (“Harakiri”), um dos maiores diretores japoneses. Toshiro Mifune interpreta um samurai que se revolta contra a tirania do senhor feudal de seu clã. Prêmio da Crítica Internacional do Festival de Veneza.

Comentários:
Isaburo Sasahra (brilhantemente interpretado por Toshiruo Mifune) ocupa o centro da tragédia em forma de painel histórico e é um dos melhores personagens de filmes de samurai já feitos.
Isaburo leva uma vida infeliz com a sua mulher e vê no amor do seu filho, Yogoro, com a sua esposa, Ichi, não apenas um alento para sua atormentada alma, já que seu filho não seguiria seus desastrosos passos na vida amorosa, mas uma beleza única que deveria ser preservada a qualquer custo, nem que para isso tenha que ir contra a opinião da sua família ou mesmo tenha que lutar e se sacrificar. Temos aqui mais uma história de um Samurai que achou o próprio código e que está disposto a dar seu sangue por ele, isso é comum em chambara.
Yogoro e Ichi acabam sendo mortos tragicamente por mandantes do senhor feudal. A revolta de Isaburo, depois da morte do seu filho e da sua nora, transforma-se. Vingança pessoal, justiça, preservação da honra, da memória e da ideia dessa beleza que ele acabara de descobrir acabam virando o combustível da rebelião de Isaburo. Dado isso ele se dispõe a enfrentar a opinião da sua família e as arbitrariedades de um suserano tirano e criminoso. Vence uma batalha contra os samurais do senhor feudal e resolve levar sua denúncia ao poder central em Edo (Tokyo).
O suserano, a fim de evitar um escândalo com seu clã, contrata outro samurai para impedir que ele chegue a seu destino. O desfecho de Rebelião é extraordinário. Mais uma vez temos uma luta entre dois personagens que representam arquétipos distintos. Temos Asano, imbuído do dever bushido e o código de honra do samurai que exige dele a vida pela estrutura de poder o qual ele é subordinado, do outro temos Isaburo lutando por um senso pessoal de justiça.
Neste momento existem duas lutas acontecendo. Uma física, com espadas, entre Asano e Isaburo e outra dentro de Asano, que tem que decidir se vai seguir o seu tradicional código samurai ou se rende ao justo código de ética de Isaburo, que na verdade é também dele. No final ele fere o amigo e retrocede a própria morte como suprema forma triunfo.
Infelizmente o destino de Isaburo não é feliz e ele acaba sendo covardemente morto em uma emboscada. Um final trágico, porém digno de um herói.

3 Samurais fora da Lei

3 Samurais fora da Lei

Três samurais fora da lei (Sanbiki no samurai, 1964)
Direção: Hideo Gosha
Sinopse:
Primeiro filme do mestre Hideo Gosha (“Tirania”) e um dos maiores clássicos “chambara” de todos os tempos. Três ronin se envolvem em uma rebelião de camponeses contra um magistrado corrupto.

Comentários:
A história começa com Shiba, um ronin, andarilho e vagabundo, que encontra, por acaso, um grupo de camponeses que sequestraram Aya, uma filha de um magistrado corrupto. Esses camponeses oprimidos buscam negociar com esse magistrado melhores condições de vida e redução de impostos. Shiba une-se a eles em sua luta, e recebe o apoio de mais dois renegados da guarda do magistrado, Sakura e Kikyo. Se fosse fazer um paralelo com o filme “O Bom, o Mal e o Feio”, clássico do Western, eu diria que o “Bom” seria Shiba, o “Mal” seria Kikyô e o “Feio” Sakura.
Por falar em Western vários elementos neste filme remetem ao consagrado gênero. Temos a ideia mítica do andarilho justiceiro, aquela conhecida entidade solitária, sem rumo e sem história, geralmente representada por um cowboy errante e misterioso que entra numa cidade, resolve uma injustiça, e depois vai embora, sumindo por uma estrada, sem maiores explicações. Neste filme, temos a figura de Shiba, no começo como um herói solitário e, no final, acompanhada por seus dois amigos, montando a imagem de três samurais que somem na névoa, seguindo um caminho decidido aleatoriamente, deixando para trás camponeses livres e uma estrutura de poder derrotada.

Conclusão:

Como podemos ver, apesar de ser ambientado no Japão (e ainda numa época específica) o cinema de samurai clássico coloca sublinearmente o expectador numa discussão que é compartilhada em muitas sociedades. Seja nos aspectos politicamente históricos, com os muitos enredos de abusos de um poder centralizado (seja um dáimio, ou imperador, ou um clã poderoso); seja nos aspectos existenciais, nas constantes figuras de rebeldes individualistas; na preferência pelo Ronin em detrimento do Samurai Tradicional (sendo o primeiro geralmente mais heroico que o segundo); nos personagens que trilham caminhos interessantes em nome de algum senso pessoal de grandeza, vivendo as tensões entre uma tradição milenar (no caso, do Bushido), dos desejos familiares, das exigências políticas e sociais e, por fim, da vontade própria, que pode ou não convergir com esses valores.

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