Marxismo, Escola de Ditadores


wm-chinese-communist-poster-924Por Roberto das Neves

(publicado originalmente no site http://aesquerdalibertaria.blogspot.com.br)

Na obra de Karl Marx há que distinguir duas partes: uma, que é boa, mas não é dele; a outra,que é dele, mas não é boa.

A primeira consiste, em resumo, na crítica da sociedade capitalista e no enunciado das teses da “mais-valia”, assim chamada a parte-de-leão arrancada pela voracidade dos patrões ao salário dos trabalhadores; na “interpretação materialista ou econômica da História”; na aplicação do “método dialético” às investigações sociológicas; na “lei da concentração do capital”, ou seja da “expropriação do maior número de capitalistas pelo menor; e na “teoria do preço e do valor do trabalho”.

Ora, todas estas teses são válidas, pelo menos relativamente. Confirmam-no diariamente as gritantes injustiças da sociedade em que vivemos, e das quais são principais vítimas os trabalhadores, sanguessugados pelo capitalismo e triturados pelo Estado. Mas tais idéias, que Marx, empanturrado da abstrusa e reacionária filosofia hegeliana e, com toda uma tradição rabínica, passando a vida inteira divorciado do trabalho calejante e dos trabalhadores, proclamou, do alto do Sinai da sua “genialidade” e “sapiência”, serem descobertas suas, não são dele, conforme no-lo demonstra Varlan Tcherkesoff, ao longo do seu irrefutável e documentado livro “Erros e Contradições do Marxismo”[1], mas sim teses e teorias já antes dele formuladas por economistas liberais, socialistas e anarquistas franceses e ingleses, designadamente Sismondi, Victor Considérant, Robert Owen, William Thompson, Adam Smith, Saint-Simon, Blanqui, Gustav Thierry. David Hume, Turgot-Ricardo, Baptiste Say, Proudhon, T. Rogers, Fourier e outros, de quem Marx as furtou.

E o mais curioso é que, não satisfeito com havê-las furtado, Marx ainda por cima insulta, ou pretende insultar, as vítimas dos seus descabelados plágios, chamando-lhes, pejorativamente, “utopistas”, sem ter em conta que, ao contrário do que imagina ou se esforça por fazer crer, a expressão “utopista” nada tem de depreciativo, pois, como todos sabem, as mais luminosas realizações de todos os tempos tiveram por crisálida a utopia.

UTOPIAS E “SOCIALISMO UTÓPICO”

Que é uma “utopia”? A palavra é formada pelos radicais gregos “ut” (não) e “topos” (lugar), designando um lugar que não existe senão na fantasia; por extensão, descrição de um país ideal onde tudo está organizado de modo a garantir a felicidade de todos.

O primeiro, que se saiba, a usar de tal palavra, nesta acepção, foi Thomas More (1478-1535),

uma das maiores glórias do Renascimento, que em 1516 deu à luz, na Inglaterra, a sua obra imortal, justamente intitulada “Utopia”, na qual se encontram em germe todas as grandes reformas sociais, que se lhe seguiram e que tão poderosa e salutar influência exerceu e continua exercendo, não só na Inglaterra, mas em todo o mundo.

Para Marx, Engels e seus pintainhos, porém, a expressão “utopia” tem o significado pejorativo de “coisa irrealizável, devaneio de loucos sem base na realidade”. Assim, é comum ouvir cacarejar esses pobres-diabos emprenhados da infalível sapiência do Mestre: “Coitados! São uns utopistas! Coisas muito bonitas, sem dúvida, aquilo com que eles sonham, mas não passam de utopias! Talvez um dia, sim, venha o seu ideal a realizar-se, mas primeiro hão de passar uns cem a duzentos anos sob o cabresto e o chicote da ditadura-do-proletariado, tal como a define o marxismo-leninismo.

Era o que faltava, quererem ir mais depressa do que convém!… A Natureza não dá saltos, a não ser com licença do Partido Comunista! Primeiro, têm que gramar-nos, como comissários-do-povo, pois para isso fizemos cursos que nos habilitam para tal função!”

Ao contrário, porém, do que fazem crer os marxistas, “utopia” está longe de significar coisa irrealizável, sem raízes na terra, mas tão-somente aquilo que ainda se não realizou, o embrião do que há de, um dia, quando os homens quiserem, realizar-se. Utopias foram a monarquia liberal, no tempo das monarquias absolutas; a abolição, na época da escravatura; a república, na era da monarquia; o ônibus, o submarino, a viagem à Lua, etc., quando o anarquista Júlio Verne as anunciava em seus romances utópicos. As maravilhosas realizações de hoje foram as desdenhadas utopias de ontem, como as utopias de hoje serão as realidades luminosas e triunfantes de amanhã.

Na sua apaixonante “História das Utopias”, o Dr. Marx Nettlau, erudito historiador anarquista e maçom austríaco, dedicou as seguintes palavras à reabilitação deste gênero literário tão escarnecido por Marx e Engels: “Facilmente se desprezam as utopias, consideradas por muitos como inúteis, ilusórias, contrárias à realidade e à ciência. Guardemo-nos de seguir essas vozes secas e utilitárias. O mundo é bastante pobre, tal como agora se encontra, e por isso toda utopia é uma das suas mais belas e raras flores. O homem é verdadeiramente pobre se não afaga um sonho, se não leva no cérebro a eterna utopia de um ideal, coletivo ou individual, concebido na sua primeira juventude, construção muito variável, à qual acrescenta modificações em cada etapa de sua evolução moral e intelectual, que cresce, envelhece e morre com ele. Que vacuidade a do cérebro que a não conhece e que, por orgulho, resignação ou mera vulgaridade absoluta, não pensa mais além do presente! Ao contrário, o carpe diem vale sempre, mas os que estão absolutamente absorvidos por ele são seres tão incompletos como os que vivem exclusivamente no sonho, na utopia”.

Ora, a utopia é, mais que um puro gênero literário, um fenômeno social de todas as épocas e uma das primeiras e mais antigas formas do progresso e da rebeldia fecundante e renovadora, porque o anseio que o homem sente de elevar-se acima de um presente cinzento, sombrio ou injusto, só aceitável para o tirano, o usurpador, o explorador dos seus semelhantes, e para os homens sem horizontes, membros do panúrgico rebanho humano, converte-se em reflexão sobre o futuro, em visão do que poderia fazer-se, e, finalmente, em ação, trabalho, investigação e experiência. Nem sempre, porém só a utopia vara as nebulosas do porvir. Não raras vezes, também a fantasia popular, auxiliada por algumas tradições e pelo espetáculo dos povos primitivos, entre os quais não existiam ainda espoliações, restrições e repressões, se remonta a um estado de justiça, abundância e felicidade, no passado. É o caso da Idade de Ouro e do Paraíso, que constituíram as primeiras utopias.

UM POUCO DA HISTÓRIA DAS UTOPIAS

Contam-se por centenas, senão milhares , as utopias engendradas pela imaginação dos escritores, poetas e filósofos de todos os tempos, desejosos de acelerarem o carro do progresso social, moral ou científico da humanidade. De entre elas, destacam-se, além da já citada, de Thomas More, pela decisiva infuência que exerceram ou exercem na marcha das idéias, as seguintes:

A “Politéia”, de Platão, avó ancestral de todas as utopias posteriores; a “Abadia de Téleme”, de Rabelais, espécie de falanstério ácrata, que tinha por única lei o “faze o que quiseres!”; a “Cidade do Sol”, do calabrês Thommaso Campanella, escrita na prisão de Nápoles, entre 1620 e 1623; “Nova Atlântida”, de Francis Bacon; “Telémaco”, de Fenelon, um dos livros mais difundidos em todo o mundo; a “República dos Filósofos”, atribuída a M. Fontenelle: as “Cartas Persas” de Montesquieu: o “Emilio” de Rousseau; “Letho”, do padre Terrason, de caráter maçônico (1731); os três espirituosos contos alegóricos de Voltaire: “Cândido”. “Zadig” e “Micrémega”: a “Idade de Ouro”. de Sylvain Marechal (1782), autor do famoso “Dictionaire des Athées”, que nos descreve um país ideal regido por um anarquismo pastoril; “Equality or History of Lithconia”, da qual a Europa tomou conhecimento, em 1838, através do “New Moral World”, o importante órgão de Robert Owen, em cuja colônia experimental socialista, na América do Norte, foram ensaiadas as teses contidas nesta utopia; “Walden”, de Henry David Thoreau, utopia do verdadeiro individualista, que vive nos bosques a sua própria vida; o “Humanisfério”, do anarquista francês Joseph Déjacque, emigrado na América do Norte, onde a publicou, inicialmente, em folhetins, no jornal “Le Libertaire”, de Nova Iorque, de 1858 a 1859; “Paris en l’an 2.000” (1867), do dr. Tony Moilin, mártir da Comuna de Paris, fuzilado no Jardim do Luxemburgo; “Mundo Novo”, de Luíza Michel (1889); a “Icária” ou “Viagem à Icária”, de Étienne Cabet, uma das mais famosas utopias, aparecida na primeira metade do século 19; “A Comuna Social”, de James Guillaume, publicada no “Almanach Jurasien” para 1871; “A Conquista do Pão”, do sábio anarquista russo Peter Kropotkin, complemento da obra do mesmo autor “Palavras de um Rebelde”; “Looking Bakward”, de Edward Bellamy, escritor norte-americano, editado em português com o título “No Ano 2.000”, uma das obras que maior número de edições alcançaram em todo o mundo e que, tendo aparecido, pela primeira vez, em 1887, em Nova Iorque, inspirou a Kropotkin, que não se conformara com as soluções estatistas propugnadas no livro, uma série de artigos, sob o título “O Século 20”, no jornal anarquista “La Revolte”, em 1889, e, daquele mesmo autor, “Equality”, posterior àquela e de maior valor, embora de menos voga; “Uma Comuna Socialista”, do dr. Giovanni Rossi, anarquista italiano, cujas idéias se plasmaram na Colônia Cecília [2], onde camponeses e operários italianos desbravaram um terreno virgem doado pelo imperador D. Pedro 1.°, em Palmeira, Paraná, Brasil, ali instalando uma coletividade livre e experimental, “sem ideal preconcebido” (como frisa Rossi, em livro posterior, no qual reconheceu ter a experiência, que durou alguns anos, demonstrado ser possível a vida em regime libertário); “O Louco e Seus Dois Irmãos” do imortal romancista e anarquista cristão russo Leon Tolstoy (1886); “News From Nowhere” (Notícias de Nenhuma Parte), do pintor inglês William Morris; “Freiland” (Terra Livre), do dr. Franz Oppenheimer; e “Der Judenstat” (o Estado dos Judeus), de Theodor Herzl (1896), estas três, de israelitas, a quem o marxismo repugnava pelo desprezo a que votava a liberdade, considerada como um “preconceito burguês”, e que deram origem à criação dos primeiros “kibutzim”, “moshavim” e “kvutsot”, coletividades agrícolas e industriais, de tipo cooperativo e comunista (não marxista ou autoritário, mas libertário ou anarquista), hoje florescentes na Palestina[3]; “Les Amours de l’Age d’Or” e “Evenor et Lucippe”, de George Sand (1885); “Mundos Imaginários e Mundos Reais” (Viagem Pitoresca pelo Céu) (1865), do astrônomo Camilo Flammarion, que nesta obra resume as fantasias utópicas concernentes aos outros planetas; “Fecundidade” e “O Trabalho”, de Émile Zola; “Sur la Pierre Blanche” (publicada em português com o título “Cristianismo e Comunismo”) e “A Ilha dos Pingüins”, ambas de Anatole France; “Fragmentos de História Futura” (1904), do filósofo francês Gabriel Tarde; “Gréve des Amoureuses”, de Camile Périer; “The Agnostic Island” (A Ilha dos Agnósticos), de F. J. Gould (1887), publicação de livres-pensadores; “Le Christ au Vatican” (O Cristo no Vaticano) que em muitas edições se atribui a Victor Hugo, mas que, na realidade, é do republicano francês Jacques Antoine Chappuis; “Nouvelle Abbay de Théléme”, de Louis Estève (1906); “La Nueva Utopia”, de Ricardo Mella, e “El Siglo de Oro”, de M. B., ambas publicadas no “Segundo Certame Socialista” (Barcelona, 1890); “La Leggenda del Primo Maggio” (A lenda do Primeiro de Maio), do poeta anarquista italiano Pietro Gori(1909); “Terre Libre”, de Jean Grave (1908); “Os Anarquistas” (1891) e “Die Freiheitsucher” (1920), ambas do anarquista individualista J. H. Mackay; “Ten Men of Money Island” (Dez homens na Ilha do Dinheiro), de Seymour F. Norton, na qual são discutidas as espinhosas questões do câmbio, que na época do aparecimento desta obra (Londres, 1896) agitavam os individualistas ingleses e americanos; “Como Faremos a Revolução”, dos anarco-sindicalistas franceses Émile Pouget e Émile Pataud, inspirada na concepção revolucionária do sindicalismo orientado pelos anarquistas (1909); “O Meu Comunismo (ou A Felicidade Universal)”, do francês Sébastien Faure, tendo por tema, como a anterior, a instauração da sociedade libertária por meio dos sindicatos revolucionários; “La Ciudad Anarquista Americana”, editada, sem menção do autor, em 1914, em Buenos Aires, por “La Protesta”, diário da Federación Obrera Regional Argentina; “Uma Utopia Moderna” e “O Mundo Libertado”, de H. G. Wells; “Les Pacifiques”, entrevendo a anarquia integral de uma idade longínqua, no terreno clássico de numerosas utopias, desde Platão, a Atlântida; “A Vida Eterna” e “O Quinto Evangelho” (a vida e a pregação do Cristo anarquista e maçom, em linguagem bíblica) [4], de Han Ryner; “The Twenteth Century” (O Século 20), pelo sábio sexólogo inglês Havelock Ellis (1900); “Náufragos”, de Adrian del Valle, aventura de um grupo de milionários que, em companhia de seus criados, naufragam, a bordo de um iate, salvando-se a custo e indo parar a uma ilha deserta do Pacífico, onde, despojados das suas riquezas e dos seus privilégios, reconstroem a sua vida, fundando, naquelas paragens, uma sociedade libertária. O tema deste romance é o mesmo da “Ilha Misteriosa”, do anarquista Júlio Verne, que pode também, por isso, a par de utopia científica, incluir-se entre as utopias anarquistas, pois, como “Náufragos” de A. del Valle, nos pinta a existência de um grupo de homens que, tendo naufragado e arribado a uma ilha deserta, ali vivem, durante muitos anos, sem propriedade privada, sem dinheiro e sem Estado, na maior harmonia e felicidade.

Na literatura brasileira, registram-se três notáveis utopias: “Harmonia”, de Afonso Schmidt; “Há 2.000 Anos”, do famoso escritor Francisco Cândido Xavier, sob o pseudônimo de “Emanuel”, e “Viagem ao Planeta Marte”, do curitibano Hercílio Mase, sob o pseudônimo de Ramatis. Tanto a segunda, como a terceira, sob a forma de obras mediúnicas, refletem a aspiração ideal, da nossa época, de uma pátria planetária, sem fronteiras, sem dinheiro, sem exércitos, sem tribunais, sem cadeias, numa palavra, sem Estado, na qual os povos se entendem por meio de um idioma comum e resolvem os problemas coletivos por mútuo e livre acordo, e onde a intoxicante alimentação cadavérica, que predispõe à doença e ao crime, foi substituída pela alimentação vegetariana. Os dois livros, de Francisco Cândido Xavier e Hercílio Mase, têm esgotados sucessivas edições e correm editados em Esperanto, através do mundo, tendo sido, por intermédio do idioma mundial, vertidos em numerosas outras línguas.

Na literatura russa, apareceram também, como não podia deixar de ser, numerosas utopias. Além da já citada, de Tolstoy, são dignas de menção: “La Rugha Stelo”5 (A Estrela Vermelha. Citei em esperanto, porque foi na edição esperanta que li, há muitos anos, esta obra famosa), de Bogdanoff (1910), cujo tema consiste numa viagem ao planeta Marte, onde os visitantes, da Terra, encontram a vida organizada de conformidade com a concepção marxista; e “Como ficaram os camponeses sem autoridades”, publicada, sob a firma de Stenka Zayaz, em 1919, ou seja nos primeiros anos após a Revolução, obra inspirada na concepção anarquista, como do seu título se infere. Depois desta, não se conhecem outras utopias. O motivo é fácil de deduzir se nos lembrarmos de que na Rússia, país de regime totalitário, não existe liberdade de imprensa nem artística, e que a utopia é considerada, no “país do socialismo”, como um gênero literário “herético”, “pequeno-burguês”, “anarcóide”. Pasternack e outros escritores russos tiveram a idéia, depois da queda de Stalin, de ressuscitá-la. Todos sabem o que lhes aconteceu. É que a Rússia, apesar do abrandamento do regime de terror, desde a morte de Stalin, ainda se não reconciliou com o sonho e com a liberdade, que continuam a ser ali considerados, desde Lenin, como “futilidades” e “preconceitos burgueses”. Ao devaneio tolerante, libertador e criador, da utopia, preferem os marxistas o realismo frio e esterilizante do dogma.

O SOCIALISMO “UTÓPICO” DE MARX

Em defesa dos socialistas liberais e anarquistas, roubados e escarnecidos por Marx, sob o apodo de “utopistas”, cumpre acrescentar que eles não se limitaram a compor utopias arrancadas à fantasia ou com materiais da simples observação. A maioria deles, senão a totalidade, ensaiaram-nas em colônias experimentais e falanstérios. Foi o caso de Robert Owen e de Fourier. O primeiro destes, como atrás dissemos, chegou à América do Norte em 1824, e ali, juntamente com o anarquista-individualista norte-americano Josiah Warren, fundou a colônia “New Harmony”, onde foram ensaiados vários sistemas de economia estranhos ao mundo capitalista. Foi lá que Warren, antecipando-se a Marx e ao próprio Proudhon, graças aos resultados da experiência, formulou a teoria do valor, que os marxistas, erroneamente, atribuem ao seu pontífice. É conveniente, a propósito, recordar que Marx, como os demais economistas burgueses, distingue entre o chamado trabalho especializado e o ordinário, atribuindo ao trabalhador intelectual remuneração mais elevada que ao operário manual. Assim, entende que uma hora de trabalho do médico, do professor, etc., equivale a duas de trabalho do tecelão, do sapateiro, da enfermeira, do trabalhador rural, etc. Warren estabeleceu a mesma diferença, mas, ao contrário de Marx e demais economistas burgueses e reacionários, a favor dos operários ocupados em trabalhos pesados, desagradáveis e insalubres.

Do exposto se conclui que o verdadeiro “socialismo científico”, no exato significado do termo, é o daqueles a quem os marxistas designam por “utopistas”, e que “socialismo utópico”, no sentido pejorativo que os marxistas emprestam a esta expressão, é o elaborado por Marx, o qual jamais submeteu as suas teorias (que, como está provado, não são dele, mas daqueles a quem chama “utopistas”) ao controle da experiência, de conformidade com o método científico, limitando-se a examinar os dados oficiais, frios e raramente exatos, das estatísticas. Quer, pois, no sentido que os marxistas dão às palavras “utopia” e “utópico”, quer tendo em conta que a ciência sociológica de Marx é toda ela, ou quase toda, dos “utopistas”, a conclusão, por mais estarrecedora que seja para os partidários do “infalível” economista, não pode ser outra senão a de que, em qualquer dos casos, Marx é um “utopista” e, portanto, que o marxismo é, nada mais, nada menos, que um “socialismo utópico”, na pior acepção, atribuída, claro está, pelos marxistas, a esta expressão.

MARX, NOVO MESSIAS

Ao sair da Universidade de Berlim, envernizado de ciência econômica, o jovem doutor em direito e neto de rabinos, à semelhança do Menino Jesus entrando na sinagoga para discutir com os doutores da Lei, resolveu entrar no movimento operário, não como aprendiz de revolucionário, mas como pontífice e ditador, para desancar os maiores vultos do socialismo. O sabichão começou por, no seu livro “A Sagrada Família”, escrito em colaboração com outro sabichão, Friedrich Engels, surrar os irmãos Bauer, os mais libertários da juventude que freqüentava o filósofo Hegel, a quem Marx tanto ficou devendo. Depois, na “Ideologia Alemã”, ao longo das oitocentas páginas do enxundioso calhamaço, baixa o porrete sobre Max Stirner, o famoso anarquista individualista, precursor do existencialismo, autor do imortal “O Único e a sua Propriedade” e o mais original dos pensadores alemães, conforme o reconheceram pensadores da estatura de Nietszche e Schoppenhauer, que naquela obra foram beber muitas das suas idéias. Na “Miséria da Filosofia”, atira-se, como cão raivoso, contra o genial teórico do anarquismo, Proudhon (este, sim, autêntico proletário e revolucionário), esquecido de que, antes, o incensara, confessando ter sido a sua famosa obra “Que é a Propriedade?” que o convertera ao socialismo, e proclamando-o “expoente máximo do socialismo proletário” e a referida obra “um manifesto científico do proletariado francês”. Outros sobre quem ele, com seu verdadeiro nome ou sob o pseudônimo de Engels, derramou a sua bílis foram Weitling, o discípulo revolucionário de Fourier; Blanqui: o grande Bakunin e seus discípulos; Ferdinand Lassalle. os revolucionários da Comuna de Paris, o naturalista Vogt, os marxistas Bebel e Liebknecht: os seus próprios genros. Lafargue e Longuet; Füerbach e Dühring. Com Bakunin as coisas estiveram em vias de ficar pretas, porque, tendo o autor de “O Capital” posto a circular a infâmia de que o grande agitador russo estava a serviço da polícia secreta do tsar. Bakunin decidiu ir procurá-lo e exigir que ele provasse tal acusação. Diante da atitude firme e decidida de Bakunin, Marx, sabedor de que o seu antagonista não era para graças, acovardou-se e engoliu a infâmia, asseverando que jamais a perfilhara.

Entretanto, este homem ressentido, permanentemente azedo contra tudo e todos, que só em si próprio descobria perfeições e que se sentia fadado para ser o que, na realidade, veio a ser, um novo Messias, fundador de uma nova religião, o Marxismo, era, pelos motivos que podeis ler na obra do célebre libertário russo Varlan Tcherkesoff, o homem menos autorizado para criticar os outros, particularmente aqueles que, como Proudhon, Bakunin e os seus discípulos, e os revolucionários da Comuna de Paris, haviam, quer nos seus livros de crítica ou filosofia social, quer nas barricadas (aonde o medroso Marx jamais se atreveu), afirmado o seu amor ao povo, aos vilipendiados, e a sua decisão de ajudarem a proscrever da Terra os inimigos implacáveis da humanidade: o Estado e o Capitalismo, ou seja a opressão e a exploração do homem pelo homem.

MARX, PROFETA FALHADO

Mas, então, nada do que Marx se atribui ou do que os marxistas lhe atribuem lhe pertence? – indagará o leitor. Sim, pertencem-lhe, pelo menos, três coisas: as deturpações que introduziu nas idéias que roubara (dir-se-ia que com o objetivo de, como fazem os ladrões de automóveis, as tornar mais dificilmente reconhecíveis pelos seus autores), as profecias e a “ditadura do proletariado”.

Não desejando ser inferior aos seus gloriosos antepassados semitas (desde Ezequiel a Nostradamus), Marx meteu-se, como eles, a profeta. E, então, preferindo às utopias as profecias (de mais sabor bíblico), pôs-se a congeminar vaticínios. Assim, baseando-as na decantada teoria da “concentração do capital” (que furtara de Buret e Victor Considérant), lançou aos quatro ventos, entre outras, a predição de que a Revolução Social iria estalar, dali a pouco, por fatalidade histórica (à semelhança dos ouriços dos castanheiros) nos países atingidos pela superprodução industrial, ou concentração capitalista (Alemanha e Inglaterra), onde a mão do proletariado, “produto e coveiro do capitalismo”, não teria mais que fazer senão acanhar as castanhas tombadas da árvore do Capitalismo. O proletariado não precisava, sequer, de “fazer força”, como pediam os velhos profetas bíblicos, “para ajudar as profecias a realizarem-se”, pois bastaria curvar-se (ante os novos senhores, ou seja Marx e Engels, ditadores do proletariado, por este guindados às culminâncias do Poder) para apanhar do chão as castanhas, que na onirologia marxista eram a representação do socialismo.

Com efeito, diziam Marx e Engels no seu famigerado “Manifesto Comunista”: “Os comunistas concentram a sua atenção sobre a Alemanha, porque este país encontra-se às vésperas da revolução burguesa (determinada pela concentração capitalista. As palavras em grifo são acrescentadas por mim, para tornar mais clara a frase. R.N.), a qual dará ao proletariado alemão, mais evoluído que o da Inglaterra do século 17 e o da França do século 18, a oportunidade de implantar o socialismo. Esperamos, pois, que a revolução burguesa seja o prólogo da revolução proletária”.

Este radioso augúrio foi feito há 127 anos. Os acontecimentos comprazeram-se em opor o mais cruel e formal desmentido ao “infalível” profeta do socialismo “científico” e às suas tão “cientificamente” elaboradas predições. O proletariado alemão apanhou, realmente, muita castanha, mas de outro gênero. Em vez de instaurar o socialismo, obedeceu, com servilismo e entusiasmo de escravos, às ordens de mobilização do kaiser Guilherme 2.º e do seu Estado-Maior, seguindo para os campos de batalha, a exterminar os seus camaradas de além-fronteiras e a deixar-se, ele próprio, exterminar, “para maior glória da pátria” dos seus amos.

Isto em 1914. Vinte e cinco anos depois, o mesmo proletariado, em que Marx e Engels haviam deposto as suas máximas esperanças, como o mais evoluído do mundo e perfeitamente educado na escola do “socialismo científico”, novamente à via da luta de classes, conduzente ao socialismo (esse paraíso na Terra anunciado pelos hierofantes do Marxismo), preferiu deixar-se arrastar, como carne de canhão, para os campos ensanguentados de Marte, a serviço dos interesses imperialistas.

A culpa não coube, porém, é preciso proclamá-lo, somente ao proletariado alemão, mas, mais do que a este, ao “infalível” papa do “socialismo científico”, o qual cometera dois tremendos erros: primeiro, não compreendera que a consciência de classe, que, como dissera Marx, o desenvolvimento das forças de produção, do tráfico mundial, etc., despertam no proletariado, é facilmente anulado pelo nacionalismo, sentimento estreito e reacionário, diametralmente oposto aos interesses do proletariado e da humanidade, e por isso tão acarinhado sempre por todos os ditadores ou candidatos a tais, como se verifica pelos regimes totalitários dos nossos dias; segundo, os dois pontífices do “socialismo científico” haviam transmitido ao proletariado a crença, de que estavam possuídos, de que não era necessário fazer força para realizar a transformação social, pois bastar-lhe-ia curvar-se e colher do chão as castanhas do socialismo caídas de maduras, por fatalidade histórica, do velho castanheiro do capitalismo. O proletariado alemão acreditou nos sacerdotes máximos da religião marxista (se o “socialismo” por eles descoberto era “científico”, não podia errar), e o resultado foi que, quando chegou a hora e, ao contrário do que havia prognosticado o profeta Marx e repetido o seu sacristão Engels, se verificou ser preciso fazer força para derrubar as castanhas do socialismo da árvore do capitalismo, o proletariado alemão reconheceu que não estava preparado para empresa tão gigantesca.

Sim, Marx e Engels erraram e, com eles, o proletariado alemão, que foi quem pagou as favas, deixando-se, por duas vezes, massacrar nos campos de batalha por interesses que não eram os seus, mas sim dos seus senhores, os donos da pátria. A Revolução Social, que os áugures do “socialismo científico” vaticinaram para breve, na Inglaterra e na Alemanha, não estalou, até hoje, em nenhum dos dois países de superprodução capitalista, mas, ao contrário, o proletariado, em vez de alcançar a sonhada vitória, sofreu, na segunda daquelas nações, em vez da prognosticada vitória, duas tremendas derrotas: a primeira, com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, na revolta espartaquista; e a segunda, sob Hitler, ambas sob o signo marxista. Contradizendo o profeta Marx, a Revolução estourou, sim, mas no país onde precisamente menos poderiam esperá-la os marxistas, na Rússia, que acabava de sair do feudalismo, com um capitalismo incipiente e, portanto, sem nenhuma das condições exigidas nas profecias de Marx para a revolução. Estourou na Rússia, porque os trabalhadores, operários, camponeses e intelectuais, orientados pelos anarquistas e socialistas-revolucionários (exterminados, mais tarde, por Trotsky, Lenin e Stalin), não deram ouvidos às profecias de Marx, e por isso, não esperando que da árvore do capitalismo caísse, por fatalidade histórica, o fruto sazonado do socialismo, decidiram colhê-lo eles próprios, desencadeando, num supremo esforço da vontade, a revolução, e estabelecendo, por meio dela, naquele país, o socialismo. Este regime durou ali três anos, e não mais, por culpa dos marxistas, que tiveram artes de ressuscitar o Estado (sempre o maldito Estado!) que submeteu os sovietes, instituições eminentemente populares. Depois, de “recuo estratégico” em “recuo estratégico”, fizeram a Revolução atolar-se no pântano, onde chafurda hoje, do mais odioso dos capitalismos, o capitalismo de Estado, com maior diferenciação de classes e de salários do que o dos velhos países capitalistas, e, o que é pior, com a mais monstruosa tirania de que há memória na História, a da falsamente chamada “ditadura do proletariado”, que outra coisa não é senão ditadura do novo patriciado, a burocracia do Partido Comunista, nova classe privilegiada.

A DITADURA-DO-PROLETARIADO E OS ANARQUISTAS

A “ditadura-do-proletariado” — eis outra invenção de Karl Marx, outra obra autêntica do Marxismo, infelizmente, porém, também má.

Na “Crítica do Programa de Gotha”, redigida por Marx em 1875, lê-se: “Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista, estende-se um período de transformação revolucionária, que vai da primeira à segunda. A este período corresponde outro, de transição política, durante o qual o Estado não pode ser outra coisa senão a ditadura do proletariado”. Já antes, no “Manifesto Comunista” (1847), escrevera: “O primeiro passo na estrada da revolução proletária é o da ascensão do operariado ao posto de classe dominante. O proletariado aproveitar-se-á do seu domínio político para arrancar, pouco a pouco, à burguesia, todo o capital, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, quer dizer nas mãos do mesmo proletariado, organizado como classe dominante”.

Mais tarde, Lenin reafirmaria, na sua obra “O Estado e a Revolução”, a tese marxista: “Só é marxista aquele que estende o reconhecimento da luta de classes ao reconhecimento da ditadura-do-proletariado”. E, mais adiante: “O proletariado necessita do Estado apenas durante certo tempo. A supressão do Estado, como idéia finalista, não é o que nos separa dos anarquistas. O que nos separa deles é que nós afirmamos que, para se chegar a essa finalidade, é indispensável utilizar temporariamente os instrumentos, os meios e os processos do poder político contra os exploradores, assim como, para suprimir as classes, é indispensável estabelecer temporariamente a ditadura da classe hoje oprimida”. “O Estado desaparecerá, à medida que desapareçam as classes e não haja, por conseguinte, mais necessidade de oprimir nenhuma classe. Mas o Estado não estará completamente morto enquanto sobreviva o “direito burguês”, que consagra, de facto, a desigualdade. Para que o Estado morra completamente, é necessário o estabelecimento do comunismo integral”.

Socialismo sempre fora, antes de Marx, sinônimo de sociedade sem classes, isto é, sem classe dominante e classe dominada, ou seja sociedade de homens livres e iguais. Mais tarde, porém, apareceu Karl Marx, que falsificou o socialismo e inventou a “ditadura-do-proletariado”, coisa inteiramente estranha ao socialismo. Depois de Marx, veio Lenin, que completou a obra de falsificação do socialismo, revelando-nos, em toda a sua hediondez, a verdadeira fisionomia do marxismo, quando, no seu programa econômico, tornado público às vésperas da revolução de Outubro (de 1917), consignou a seguinte definição: “O socialismo nada mais é do que o monopólio do Estado”. Nestas palavras, mostrava-nos Lenin que, sob a capa da emancipação dos trabalhadores, o que os marxistas pretendiam era, nada mais, nada menos, do que estabelecer, não a ditadura do proletariado (pois este, no dia seguinte ao da revolução expropriadora e niveladora, seria a classe única, portanto toda a sociedade), mas a ditadura do partido comunista, que fundaria, como aconteceu, de conformidade com os programas de Marx e de Lenin, um Estado totalitário, mastodôntico, monopolizador de todas as atividades humanas, destinado a triturar impiedosamente, com a sua terrível dentuça, os trabalhadores.

PORQUE SUBSISTE NA RÚSSIA O ESTADO

Noutro ponto do mesmo livro, Lenin acrescenta: “A distinção entre marxistas e anarquistas consiste no seguinte: 1) Os marxistas, embora se proponham destruir o Estado, não creem isto realizável senão depois da destruição das classes e como resultado da vitória do socialismo, que terminará pela destruição do Estado. Os anarquistas, por seu turno, querem a supressão completa do Estado, de um dia para o outro, sem admitir as condições que, segundo os marxistas, oferecem a possibilidade de suprimi-lo. 2) Os marxistas proclamam a necessidade de o proletariado se apoderar do poder político, de destruir completamente a velha máquina do Estado e de substituí-la por um novo aparelho, consistente na organização dos operários armados segundo o tipo da Comuna. Os anarquistas, por seu turno, ao reclamarem a destruição da máquina do Estado, não sabem como nem por que o proletariado deve substituí-la, nem que uso deverá este dar ao poder revolucionário. Condenam inclusive todo uso do poder político por parte do proletariado revolucionário e repelem a ditadura revolucionária do proletariado. 3) Os marxistas querem preparar o proletariado para a revolução, utilizando o Estado moderno. Os anarquistas rejeitam este método.”

Se cotejarmos estas linhas com as do “Manifesto Comunista” e de “O Capital”, concluiremos facilmente que Lenin falseava, neste ponto, a tática marxista, pois os marxistas não se propõem destruir o Estado, mas simplesmente preveem a sua desaparição natural, como conseqüência da destruição das classes por meio da ditadura-do-proletariado, o que equivale a dizer do socialismo de Estado, ao passo que, mais lógicos (pois sabem que as classes não existem sem o Estado, que é o guardião da classe dominante), os anarquistas querem destruir as classes por meio da revolução social, que suprime, simultaneamente, o Estado e as classes. Lenin não ignorava esta interdependência entre aquele e estas, pois reconhece claramente, noutro passo da sua obra, que “o Estado é a arma de que se vale a classe dominante para manter submissa a classe dominada”. E, por saber tudo isto e obrar como se o não soubesse, é que Emma Goldmann, a grande anarquista russa residente na América do Norte, que à Rússia regressara expressamente para tomar parte na revolução de Outubro, e daquele mesmo país se evadira, ao verificar a impossibilidade de ali realizar obra emancipadora, desmascarou Lenin, chamando-lhe “o grande jesuíta” num libelo por ela publicado.

Ora, se o Estado é, efetivamente, o cão-cérbero da classe privilegiada ou dominante, o que equivale a dizer do Capitalismo, como o reconheceram os próprios coriféus do marxismo-leninismo, cabe perguntar: porque é que na Rússia, onde, segundo os chamados comunistas moscovitas, só existe uma classe, a dos trabalhadores, e onde foi suprimido o capitalismo, subsiste o Estado? Das duas, uma: ou na Rússia, efetivamente, não existem mais classes, e então o Estado subsiste como sobrevivência miasmática de um tenebroso passado de opressão, que o atuais administradores mantêm com sádicos objetivos; ou, ao contrário do que afirmam os comunistas moscovistas, a Rússia continua dividida em duas classes, e então compreende-se a sobrevivência do Estado como instrumento indispensável à classe dominante para impor o seu domínio à classe dominada. (Sublinhei acima comunistas moscovitas, porque os comunistas de Pequim sustentam o contrário, isto é, que a Rússia se conserva dividida em classes) . De qualquer maneira, a conclusão só pode ser uma: a Revolução orientada pelos marxistas, que, como parteira da sociedade nova, deveria ter dado nascimento ao socialismo, fracassou estrondosamente na Rússia.

Efetivamente, a Rússia, pelo que se conclui dos testemunhos imparciais de todos quantos a têm visitado, burgueses e revolucionários, incluindo entre estes tantos comunistas de valor, que emigraram para aquele país, sinceramente decididos a dedicar-se à grandiosa obra da “construção do socialismo”, e que de lá voltaram, anos depois, totalmente desiludidos, está cada vez mais distante do verdadeiro socialismo. (A lista dos desiludidos é enorme, não valendo a pena reproduzi-la aqui, pois nos tomaria muito espaço. Limitar-nos-emos, por isso, a recordar um exemplo da casa: Osvaldo Peralva, o qual, tendo sido, por vários anos, diretor da imprensa do Partido Comunista brasileiro, foi para a Rússia, a convite dos dirigentes do Komintern, que nele farejavam o futuro Lenin do Brasil, com o objetivo de fazer o curso de estado-maior. Osvaldo Peralva permaneceu em Moscou e em Praga cerca de quatro anos, ao fim dos quais regressou ao Brasil totalmente desencantado. Em vez do socialismo, que ele esperava ir encontrar na “pátria do proletariado”, o que ele viu ali foi apenas “fascismo vermelho”, conforme confessa no seu terrível depoimento intitulado “Retrato”, obra interessantíssima, confirmadora do que aqui afirmamos, e á qual se seguiram outros dois livros do mesmo gênero: “Líderes soviéticos” e “Pequena História do Mundo Comunista”[6].

O MARXISMO ROMPEU, PARA SEMPRE, A UNIDADE ENTRE AS CORRENTES DO SOCIALISMO

Os acontecimentos demonstraram que as diferenças entre anarquistas e marxistas não eram tão

superficiais como fazia crer Lenin. Nas vésperas da Revolução de Outubro, as colisões entre as duas principais correntes revolucionárias eram freqüentes nos comícios e em toda a parte onde o povo discutia a maneira de reestruturar a vida, em seguida à faísca revolucionária, que todos consideravam iminente. Enquanto os oradores bolchevistas (marxistas) gritavam: “Os trabalhadores devem organizar o Estado, de acordo com a concepção de Marx e de Lenin, começando por encampar todos os meios de produção (a terra, as fábricas, as minas, etc.) e colocá-los sob o controle imediato do Estado, do qual ficarão sendo propriedade!”, os anarquistas opunham-lhes: “A terra deve pertencer aos camponeses, que a regam com o seu suor! As fábricas pertencem, de direito, aos operários que as movimentam! As minas são dos mineiros, que, com risco da própria vida, extraem das suas entranhas o minério necessário à sociedade. As escolas devem ser propriedade dos professores, e só estes devem organizá-las como entendam, para que elas cumpram a sua finalidade. Em resumo, só os trabalhadores de todos os ramos, manuais e intelectuais, devem dispor dos instrumentos de produção, que fazem funcionar, assim como dos produtos do seu trabalho. O Estado é a arma da classe dominante, e por isso tem de ser eliminado juntamente com ela. Se os trabalhadores, ao fazerem a sua revolução, pouparem o monstro, o parasita, o proxeneta chamado Estado, terão perdido a revolução, pois o monstro ressuscitará a classe dominante, e os trabalhadores ficarão, de novo, na mó de baixo!”

Para resolver estas diferenças, que ameaçavam comprometer a revolução, convocou-se, nas vésperas da grande comoção social, uma reunião de representantes das várias correntes revolucionárias, a fim de encontrar-se uma fórmula que permitisse a colaboração indispensável entre elas. Ficou assente que se deixaria a cada corrente a liberdade de organizar a sua própria vida, de conformidade com os seus próprios pontos-de-vista. Significava isto que cada uma das ‘correntes reconhecia às outras o direito de praticar, na vastíssima extensão da Rússia, os seus métodos e sistemas, a título experimental, sem se hostilizarem entre si. Os anarquistas admitiam que aqueles que se considerassem incapazes de se administrarem, aceitassem a tutela do Estado, isto é, se submetessem à direção de outros homens, os governantes, aparentemente iguais a eles. Por seu lado, os marxistas comprometiam-se a deixar que os anarquistas e os trabalhadores, operários, mineiros e camponeses, influenciados por eles, se regessem diretamente, dispensando a tutela do Estado, cuja legitimidade e critério administrativo não reconheciam.

De conformidade com este pacto, os libertários, que haviam ocupado lugar na primeira linha da revolução, trataram de proceder em consonância com as suas doutrinas. Assim, por exemplo, na Ucrânia, a parte mais civilizada da Rússia, os anarquistas organizaram os operários e camponeses em comunas, por meio das quais procuraram resolver os problemas concernentes à existência. Ao mesmo tempo, constituíram um exército voluntário, o qual, sob a orientação de Maknó, um antigo padeiro anarquista, que passara doze anos nas masmorras do tsar e fora restituído à liberdade por Kerensky, revelando-se, mais tarde, um estratega genial, por três vezes salvou a revolução, derrotando, por meio de hábeis guerrilhas, os exércitos, muitas vezes superiores em homens e armamentos, de Denikine. Wrangel e Koltchak, constituídos pelos restos dos exércitos austro-húngaros da guerra de 1914-18, armados e enviados para a Rússia pelo capitalismo internacional, com o objetivo de esmagar a Revolução em marcha.

O EXTERMÍNIO DOS ANARQUISTAS PELOS MARXISTAS

Pois, quando era de esperar dos marxistas entronizados no governo central de Moscou, se não a sua adesão aos libertários, pelo menos um cada vez maior respeito pela sua dedicação à causa do povo e fidelidade ao acordo espontaneamente firmado com eles, foi o contrário o que se verificou. Enciumado com o extraordinário prestígio alcançado subitamente por Maknó e, de modo geral, pelas organizações anarquistas dos camponeses e operários da Ucrânia, Trotsky, então à frente do Exército Vermelho, ordenou uma ação armada contra eles. E assim, quando os guerrilheiros libertários da Ucrânia, após haverem infligido tremenda derrota aos invasores, numa batalha junto ao estreito de Perikope, à qual haviam sido solicitados pelo próprio Trotsky, se retiravam, com a satisfação do dever cumprido, caem inesperadamente sobre eles, à traição, dois corpos do Exército Vermelho, que os destroçam, entre dois braços de uma tenaz. Maknó, com o corpo crivado de balas, salva-se, como que por milagre, dentro de um carro de feno, e, alguns dias depois, alcança a fronteira, refugiando-se na França, onde faleceu, anos depois, tuberculoso. Estava, desta forma, rota para sempre a unidade das correntes do socialismo, pela traição dos que mais estridentemente gritam por unidade. Atos idênticos de traição praticaram, diariamente, contra os anarquistas, socialistas e republicanos, os bolchevistas, mais tarde, na guerra de Espanha, onde eles se revelaram o inimigo n.º 1 do povo espanhol e da causa da liberdade.

Desde os três primeiros anos da Revolução de Outubro, a Rússia caracteriza-se pelos seguintes aspectos essenciais, que constituem o maior desmentido às afirmações dos ingênuos que, apesar de tudo, persistem em ver na Rússia (assim como em Cuba, país igualmente orientado pelos totalitários do marxismo) um país socialista: Em primeiro lugar, é o país onde com mais terrível sanha se tem perseguido o comunismo e os comunistas (em nenhum outro país do mundo eles têm sido exterminados em tão elevado número); como nos países declarados fascistas, designadamente a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco, apresenta ausência total das chamadas “liberdades fundamentais do cidadão”, ou seja a de eleger os seus representantes (sindicais e outros), a de criticarem na imprensa os atos dos governantes, a de reunião, a de propaganda de qualquer ponto-de-vista ou credo considerado “herético”, isto é contrário à “verdade oficial”; a de viajar, até mesmo dentro dó país, pois, no que concerne à de viajar para o estrangeiro, o muro de Berlim dispensa-nos de comentários; a liberdade de criação artística (o drama de Pasternak é bastante elucidativo); etc., etc. Em resumo, quase meio século depois da grande gesta revolucionária, do muito alardeado pelo “socialismo científico” imposto à revolução russa, vemos de pé somente o que esta nada mais já tem de socialismo e nada daquilo que tampouco jamais foi ciência.

É PRECISO RECOMEÇAR!

O reconhecimento destas verdades ajuda-nos a compreender por que os totalitários de todo o mundo se inclinam para os totalitários russos. Sirva-nos de exemplo o caso de Salazar e Franco, preparando, nos últimos meses, como tem sido revelado pela imprensa mundial, acordos, respectivamente, com os governos da China comunista e da Rússia, e chegando ao ponto de darem instruções à censura para que não permitisse publicar na imprensa ataques aos regimes daqueles países. Ao mesmo tempo, numa estranha coincidência, as polícias políticas de Salazar e Franco deixaram fugir, no mesmo dia e à mesma hora, de três prisões diferentes, cerca de vinte dos principais dirigentes comunistas. Na Argentina, Venezuela, Brasil e outras nações, os detritos do fascismo (“pelegos”, como o povo aqui os designou) e os bolchevistas dão-se acumpliciadamente as mãos contra os democratas e partidários da liberdade de todas as tendências. É a solidariedade dos afins.

Some-se ao que fica exposto a permanência, na Rússia (depois de quase meio século da Revolução de Outubro), do salariato e das classes (sinal mais brutal das suas formas), e não nos restará a menor dúvida de que a Revolução dirigida pelos marxistas, ou, pelo menos, inspirada nos ensinamentos de Marx, foi um deus que falhou, depois de, como Saturno, devorar os seus próprios filhos.

O Marxismo, com o gélido frio do seu “materialismo dialético”, fez murchar as esperanças no socialismo, que o generoso calor das utopias acendera no coração da humanidade.

Porém, como bem disse Nérvio, o proletariado e, mais que o proletariado, todos os homens, não importa quais sejam eles, que anelam, para a sociedade e para o indivíduo, um destino superior, não devem jamais destruir uma esperança, não devem nunca negar um propósito, senão de maneira nobre e criadora: dando vida a novas possibilidades, que por si mesmas anulem e tornem supérfluas e anacrônicas as instituições que se repudiam. Não deve ser nosso propósito matar uma fé, mas afirmar essa fé: a fé no homem, a fé na vida livre, à margem dos Salvadores, dos Messias, por mais inspirados que se creiam.

Por isso afirmamos: é preciso recomeçar! Traçar, com valentia, um bosquejo de empresa planetária, que mobilize para a criação livre todos os homens da Terra, que atraia e seduza a ânsia de ação das gerações novas, que, ao arco tenso e à flexa inflexível da vontade afirmativa, fixe um ponto de cobiça.

É necessário rasgar as velhas e falidas normas, porém despertando, em seu lugar, firmes e audazes iniciativas. E, sobretudo, que estas se inspirem sempre na compreensão de que os homens são, não um meio, mas um fim!

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Roberto das Neves foi jornalista, escritor e ativista político português. Defensor do anarquismo individualista, colaborou com diversos projetos em Portugal e no Brasil.

Notas:

[1] Publicado pela Editora GERMINAL (C. P. 15.142 – Rio de Janeiro). e à venda na Livraria-Editora MUNDO LIVRE.

[2] Com este título, publicou Afonso Schmidt, há pouco falecido, um livro, de que se esgotaram duas edições, com a história desta experiência anarquista. Depois deste, apareceu e encontra-se à venda, com o título de “O Anarquismo da Colônia Cecília”, de autoria do eng. Stadler Souza, novo livro com nova e abundante documentação, editado pela Editora Civilização Brasileira.

[3] Sobre as referidas utopias e o funcionamento destas coletividades, leia-se “O Novo Israel”, por Augustin Souchy, uma das obras mais interessantes sobre o assunto, publicada pela Ed. GEMINAL e à venda nesta Editora.

[4] Esta obra, uma das maiores da literatura universal e a que mais contribuiu para que fosse concedido ao seu autor o título de “Príncipe dos Escritores Filosóficos”, num plebiscito entre os escritores mundiais promovido pela Academia Goucourt e por Romain Rolland, foi recentemente publicada, em tradução portuguesa de Maria Angélica de Oliveira, pela Editora GERMINAL. Seguiu-se-lhe, do mesmo autor e pela mesma Editora. o “Manual Filosófico do Individualista”, ambas à venda nesta Editora

[5] “Sennacieca Asocio Tutmonda”, Avenue Gambetta, 67 — Paris 20.º

[6] Osvaldo Peralva, a quem os dirigentes comunistas brasileiros, furiosos com a publicação dos seus terríveis libelos contra os moscovitas, acusaram de vendido ao “imperialismo ianque”, foi, depois, diretor-superintendente do “Correio da Manhã”, um dos mais desassombrados jornais liberais do Brasil, ao qual soube imprimir uma orientação, que é um desmentido às atoardas dos fanáticos partidários de Moscou. Tendo-se esgotado rapidamente a la edição, “O Retrato” reapareceu em edição de bolso da Livraria do Globo, de Porto Alegre, e, pouco depois, em novas edições, em Lisboa.

Bibliografia:

Bernstein, Edward — “Die Voraussetzungen des Sozialismus und Aulfgaben der Sozial demokratie” (recém-editado no Brasil, pela Ed. Zahar, com o título de “Socialismo Evolucionário”).

Dommanget, Maurice — “Histoire du Prémier Mai”.

Fabbri, Luigi — “Ditadura y Revolución”.

Fromm, Erich — “O Medo à Liberdade” e “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”.

Lanti, E. — “Chu Konstruighas Socialismo en Sovetio?” (em Esperanto). (Constrói-se Socialismo na Rússia?)

Maximoff, G. P. — “The Politikal Philosophy of Bakunin (Scientific Anarchism)”.

Nettlau, Max — “Socialismo Autoritário y Socialismo Libertário” e “Historia de la Anarquia”.

Proudhon, P. -1 . — “Sistema das Contradições Econômicas” e “Confissões de um Revolucionário”.

Prunier, André — “Marxismo y Anarquismo”, in revista “Cenit”, p. 1340-43. Read, Herbert — “Anarquia y Orden”.

Rocker, Rudolf — “Influências das Idéias Absolutistas no Socialismo”, “Nacionalismo y Cultura” e “Revolución y Regresión”.

Russell, Bertrand — “O Erro Intelectual do Comunismo”.

Sanftleben, Alfred — “Utopia und Experiment”.

Santos, Mário F. dos — “Análise Dialética do Marxismo”.

Mendes, Silva — “O Socialismo Libertário ou Anarquismo”.

Steinberg, I. N. — “In the Workshold of the Revolution”. Vóline — “Revolution Inconu (Histoire Sincère de la Revolution Russe)”.

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