A História é a Ciência da Infelicidade dos Homens – 17 anos da Morte de Pol Pot.

imagesO genocídio cambojano de 1975-1979 foi uma das piores tragédias humanas do século passado. Como no Império Otomano durante o genocídio armênio, na Alemanha nazista, e, mais recentemente, em Timor Leste, Guatemala, Iugoslávia e Ruanda, o regime do Khmer Vermelho liderado por Pol Pot combinou ideologia  extremista com animosidade étnica e um desrespeito diabólico com a vida humana para produzir repressão, miséria e assassinato em uma escala maciça. Saloth Sar nasceu no ano de 1925 em uma família de agricultores no centro de Camboja, que era então parte da Indochina francesa. Em 1949, aos 24 anos, ele viajou para Paris, onde teve seu primeiro contato com o comunismo. Negligenciando seus estudos acadêmicos e inspirado pelo Partido Comunista Francês e seus ideais marxistas, se dedicou a grupos de estudo da ideologia e ao combate à monarquia absolutista do Príncipe Norodom Sihanouk. Assim se formaram os primeiros membros do Khemer Vermelho. Em 1953, Sar, após perder sua bolsa de estudos, retorna ao Camboja, e alia-se ao movimento comunista clandestino. Em 1962 , Pol Pot havia se tornado líder do Partido Comunista do Camboja e foi forçado a fugir para a selva para escapar da ira do Príncipe Norodom Sihanouk, líder do Camboja. Na selva, Pol Pot formou um movimento de resistência armada que ficou conhecido como o Khmer Rouge ( cambojanos vermelhos ) e travaram uma guerra de guerrilha contra o governo de Sihanouk . Em 1970 , o príncipe Sihanouk foi deposto , e não por Pol Pot, mas devido a um golpe militar direitista apoiado pelos EUA .Sihanouk junta-se ao seu antigo inimigo Pol Pot em oposição ao governo militar do Camboja.Nesse mesmo ano, os EUA invadiram o Camboja para expulsar os norte-vietnamitas a partir de seus acampamentos nas fronteiras. De 1969 até 1973, os EUA bombardearam intermitentemente a região, totalizando 600 mil mortes como resultado. Os camponeses fugiram do campo, estabelecendo-se na capital  Phnom Pehn. Esses eventos resultaram em desestabilização econômica e militar no Camboja e uma onda de apoio popular para Pol Pot e os khmers vermelhos. Aos poucos os khmers avançaram e tomando cidades uma a uma até se aproximar de Phnom Penh.

O começo da pior ditadura de todos os tempos- O Ano Zero.

Pol Pot havia recomendado oito pontos distintos que deveriam nortear as ações de suas forças militares, de acordo com Ben Kiernan.

  • Evacuar as pessoas de suas cidades
  • Abolir todos os mercados
  • Abolir a moeda do regime republicano de Lon Nol e implantar a moeda da revolução que havia sido impressa.
  • Capturar todos os monges budistas e forçá-los a trabalhar no plantio de arroz.
  • Executar todos os líderes do Regime de Lon Nol, começando pelos mais graduados.
  • Estabelecer cooperativas de alto nível ao longo de todo o país, com área de alimentação comum.
  • Expelir toda a população minoritária vietnamita
  • Enviar tropas às fronteiras, especialmente à fronteira com o Vietnã.

No Kampuchea Democrático (Estado que existiu no Sudeste Asiático, onde hoje se localiza o Camboja), não havia prisões, nem tribunais, nem universidades, nem liceus, nem moeda, nem correios, nem livros, nem prática de esportes, nem distrações. Não era tolerado qualquer tempo morto numa jornada de 24 horas. A vida cotidiana dividia-se assim: 12 horas de trabalhos físicos, duas horas para comer, três horas para repouso e educação, sete horas de sono. Estávamos num imenso campo de concentração. Já não havia justiça. Era em Angkar que se decidia sobre todos os atos da nossa vida. Os Khmers Vermelhos utilizavam frequentemente parábolas para justificarem os seus atos e ordens contraditórios. Comparavam o indivíduo a um boi: “Vocês veem esse boi que puxa o arado? Ele come onde nós mandamos. Se o deixarmos pastar nesse campo, ele come. Se o levarmos para outro campo onde não haja erva suficiente, ele pasta, apesar de tudo. Não se pode deslocar. É vigiado. E, quando lhe dizemos que puxe o arado, ele o puxa. Ele nunca pensa na mulher ou nos filhos”.

O Kampuchea Democrático deixou, a todos os sobreviventes, essa impressão de estranheza, de perda de referências e valores, Passara-se realmente para o outro lado do espelho, e, se uma pessoa queria manter uma possibilidade de sobreviver, tinha de iniciar-se urgentemente nas novas regras do jogo. O primeiro ponto era o desprezo radical pela vida humana : Perder-se não é uma perda. Manter-se não tem qualquer utilidade – todos os testemunhos referem a essa temida fórmula. Foi efetivamente uma descida ao inferno o que viveram os cambojanos, conheceram desde então a supressão da cultura budista, o arrancar dos jovens de suas famílias, a imposição de um código de indumentária uniforme, a transformação das cooperativas de produção em brigadas.

AS CRIANÇAS DE POL POT

KHMER VERMELHO ENSINAVA CRIANÇAS A MATAR E TORTURAR

Todos os testemunhos continham os relatos da extrema juventude de uma grande parte dos soldados khmers vermelhos. São recrutados aos 12 anos, por vezes menos- Sihanuk teve pré-adolescentes entre os seus guardas, que se distraíam torturando gatos. Ly Heng  evoca a última campanha de recrutamento, estendida aos novos: dirigia-se tanto aos rapazes como às moças, entre 13 e os 18 anos; diante do pouco sucesso da convocação de voluntários, brigadas móveis de jovens foram obrigadas a passar dos estaleiros para o exército. Os Jovens recrutas perdiam todos os contatos com a família, e geralmente com o povoado natal.Vivendo em acampamentos, relativamente afastados da população que os temia, honrados pelo poder. Para lá do palavreado revolucionário, a motivação de muitos, confessada até por alguns fugitivos, era não precisar trabalhar e poder matar pessoas. Os que tinham menos de 15 anos eram os mais temíveis: eles eram recrutados muito novos, e só lhes era ensinada a disciplina. Simplesmente obedecer as ordens, sem necessidade de justificação, não acreditavam nem na religião, nem na tradição, mas apenas nas ordens dos Khmers Vermelhos. Era por isso que matavam seu próprio povo, bebês inclusive, como se matam mosquitos. Os soldados eram frequentemente usados desde 8 ou 9 anos como espiões; no entanto, o grau de adesão do regime era tão fraco, que se instalou muitas vezes uma forma de cumplicidade tácita entre eles e os espionados, sempre arranjando-se uma maneira de avisá-los discretamente de sua presença. Um pouco mais velhos, após os expurgos em massa de quadros locais, eles se tornaram “crianças milicianas”, suplentes dos novos chefes de cooperativas, encarregados de localizar, prender e espancar culpados de auto alimentação. A experiência de Laurence Picq, no Centro, mostra que, com o tempo, a ditadura infantil estava destinada a uma extensão de sua atuação ao domínio do enquadramento civil. Picq descreve a formação acelerada de um contingente de crianças dos campos: “Explicaram-lhes que a primeira geração de quadros tinha traído e que a segunda não era melhor do que a primeira. Por isso eles seriam chamados a substituí-las muito rapidamente”. Foi entre essa nova geração o que apareceram as crianças médicos. Elas eram seis meninas de 9 a 13 anos. Mal sabiam ler, mas o Partido confiou a cada uma delas uma caixa de seringas. Estavam encarregadas de dar injeções. “As nossas crianças médicos, eles diziam, são oriundas do campesinato. Elas estão prontas a servir a sua classe. São notavelmente inteligentes. É só dizer-lhes que a caixa vermelha contém vitaminas, e elas se lembrarão. mostrem como se esteriliza uma seringa, e elas saberão fazê-lo!” Essas crianças eram puras, incontestavelmente, mas ninguém contara com a embriaguez que proporciona o saber dar injeção! Muito rapidamente as crianças médicos mostraram-se de uma arrogância sem precedentes. A ruptura resulta ainda da supressão da religião, e do extremo moralismo imposto em todos domínios da vida cotidiana. A arbitrariedade é total: o partido não tem de justificar suas escolhas políticas, nem a seleção dos quadros, nem as suas mudanças, quer de orientação, quer de pessoal, ai daquele que não compreendeu a tempo que os vietnamitas eram inimigos, ou que tal líder histórico do movimento era de fato um agente da CIA!

É do angulo da traição, ou da sabotagem conduzida pelas antigas classes exploradoras e os respectivos aliados, que Pol Pot analisava o fracasso econômico, e frequentemente militar, cada vez mais patentes do regime, daí o exagero das medidas criminosas.

GENOCÍDIO? 

É necessário tomar a decisão de qualificar os crimes dos Khmers Vermelhos. É uma aposta científica: situar o Camboja relativamente aos outros grandes horrores desse século e inscrevê-lo no respectivo lugar na história do comunismo. É igualmente uma necessidade jurídica: uma parte significativa dos responsáveis do PCK (Partido Comunista Khmer) está ainda viva, e ativa. Devemos resignar-nos com o fato de que eles continuem a gozar de uma total liberdade? Em caso negativo, sob que pontos de incriminação julgá-los? Que Pol Pot e os seus correligionários são culpados de crimes de guerra é uma evidência: os prisioneiros do exército republicano foram sistematicamente maltratados e muitas vezes executados; aqueles que depuseram as armas em 1975 foram seguidamente perseguidos sem piedade. O crime contra a humanidade não constitui problema: grupos sociais inteiros foram considerados indignos de existirem, e largamente exterminados. A menor divergência política, verdadeira ou suposta, era punida com a morte. A verdadeira dificuldade reside no crime de genocídio. Se tomarmos a definição ao pé da letra, arriscamo-nos a cair numa discussão um pouco absurda: aplicando-se o genocídio apenas aos grupos nacionais, étnicos, raciais e religiosos, e, como globalmente os Khmers não podem ser considerados alvos de extermínio, toda a atenção se concentra nas minorias étnicas, e eventualmente no clero budista. Mas, mesmo todos juntos, esses grupos apenas constituíram uma parte relativamente reduzida das vítimas; além disso, como vimos, é arriscado afirmar que os Khmers Vermelhos reprimiram especificamente as minorias, exceto os vietnamitas a partir de 1977 – embora restassem muito poucos nessa altura; os próprios Cham foram visados principalmente porque a sua fé islâmica representava um foco de resistência. Alguns autores tentaram resolver o problema introduzindo a noção de politicídio – definido em geral como um genocídio de base política (poder-se-ia utilizar também sociocídio (genocídio de base social). Trata-se de recuar para melhor saltar: devemos situá-lo, sim ou não, no mesmo nível de gravidade que o genocídio? E, se sim, como esses autores parecem entender, por que razão embaralhar as pistas não mantendo o termo consagrado? É preciso lembrar que, durante as discussões prévias à adoção da Convenção do Genocídio pela ONU, só a URSS, por razões demasiado óbvias, se opôs à inclusão do grupo político entre os qualificativos do crime. Mas, sobretudo, o termo racial (que não abrange, note-se, nem a etnia nem a nação) deveria proporcionar uma solução: a raça, fantasma desmontado pelos progressos do conhecimento, só existe aos olhos de quem pretende delimitá-la; na realidade, é tão lógico falar de uma raça judaica como de uma raça burguesa. Ora, para os Khmers Vermelhos, como, aliás, para os comunistas chineses, certos grupos sociais são globalmente criminosos por natureza; além disso, esse “crime” é transmitido tanto aos cônjuges como à descendência, através de uma forma de hereditarização dos caracteres (sociais) adquiridos .Portanto, temos o direito de evocar uma racialização desses grupos sociais: o crime de genocídio pode então aplicar-se à sua eliminação física, levada muito longe no Camboja, e seguramente conduzida com conhecimento de causa. Assim, Y Phandara ouve um Khmer Vermelho dizer, a propósito do 17 de abril:

“É o nome dos citadinos que apoiavam o regime do traidor Lon Nol. Há entre eles imensos traidores. O Partido Comunista teve a prudência de eliminar uma boa parte deles. Os que ainda vivem trabalham no campo. Já não têm energia para se erguerem contra nós.”

Para milhões de cambojanos de hoje, a fratura da era Pol Pot, deixou a sua marca de fogo, irremediável. Em 1979, 42% das crianças eram órfãs, três vezes mais de pai do que da mãe; 7% haviam perdido os dois progenitores. Em 1992, é entre os adolescentes que a situação de isolamento é mais dramática: 64% de órfãos. Uma parte dos males sociais gravíssimos que ainda hoje fazem enormes estragos na sociedade cambojana, de um nível excepcional relativamente à Ásia Oriental, provém desta desarticulação: criminalidade em massa e frequentemente violenta (as armas de fogo são encontradas por todos os lados), corrupção generalizada, desrespeito e falta de solidariedade, ausência em todos os níveis, do menor sentido do interesse geral. As centenas de milhares de refugiados no estrangeiro (150 mil só nos Estados Unidos) continuam também eles, a sofrer o que viveram: pesadelos frequentes, a mais alta taxa de depressões nervosas de todos os oriundos da Indochina, uma grande solidão para as mulheres que chegaram sozinhas, em numero muito maior do que os homens da sua geração, assassinados. E, no entanto, a energia da sociedade cambojana não desapareceu: quando, em 1985, os últimos resquícios da coletivização foram abandonados, o aumento da produção permitiu quase de imediato o desaparecimento da penúria  alimentar. Em face dos responsáveis da ditadura khmer vermelha, esse laboratório de todos os desvios mais sombrios do comunismo, os cambojanos, nos quais se compreende o desejo primordial de regressarem a uma vida normal, não devem ser os únicos a suportar o fardo da liquidação de um passado terrível. O mundo, que com frequência teve tanta complacência para com os seus carrascos, e tão tardiamente, deve também tomar esse drama como SEU.

 

Com a água produz-se o arroz, com o arroz faz-se a guerra.

Nunca os Khmers Vermelhos julgaram dizer uma verdade tão grande: NUNCA HOUVE ARROZ SUFICIENTE, E PERDERAM A GUERRA!

 

Fontes:

http://www.yale.edu/cgp/

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-16122009-082827/pt-br.php

http://www.paperbackswap.com/Retour-Phnom-Penh-Y-Phandara/book/2864240130/

LIVRO: O silêncio do Algoz François Bizot

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