Por que ser libertário?

(publicado originalmente no site ordemlivre.org)

 

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Por que ser libertário, afinal? Com isso queremos dizer: qual o propósito disso tudo? Por que assumir um compromisso profundo para o resto da vida com o princípio e o objetivo da liberdade individual? Esse compromisso, em nosso mundo amplamente não-livre, significa inevitavelmente um desacordo radical e uma alienação do status quo, uma alienação que inevitavelmente impõe muitos sacrifícios em dinheiro e prestígio. Sendo a vida curta e o momento da vitória distante no futuro, por que passar por tudo isso?

Incrivelmente, descobrimos dentre o crescente número de libertários neste país muitas pessoas que chegam a um compromisso libertário por um ou outro ponto de vista extremamente limitado ou pessoal. Muitas são irresistivelmente atraídas pela liberdade como um sistema intelectual ou como um objetivo estético; mas a liberdade permanece para elas um puro jogo intelectual de salão, totalmente divorciado daquilo que consideram as atividades “reais” de suas vidas diárias. Outras são motivadasa permanecer libertárias somente a partir da antecipação de seus próprios lucros financeiros pessoais. Entendendo que o livre mercado proveria oportunidades muito maiores para homens capazes e independentes colherem lucros empresariais, estes se tornam e permenecem libertários somente para descobrir maiores oportunidades para lucros nos negócios. Conquanto seja verdadeiro que as oportunidades para o lucro serão muito maiores e mais disseminadas em um livre mercado e em uma sociedade livre, colocar a principal ênfase nessa motivação para ser libertário só pode ser considerado grotesco. No caminho sempre tortuoso, difícil e exaustivo que deve ser trilhado antes que a liberdade possa ser conquistada, as oportunidades libertárias para lucros pessoais quase sempre serão mais negativas que abundantes.

A consequência da visão limitada e míope tanto do jogador intelectual como do potencial capitalista é que nenhum destes grupos tem o menor interesse em trabalhar para construir um movimento libertário. No entanto, é apenas através da construção de um movimento que a liberdade pode em última instância ser conquistada. Idéias, e especialmente idéias radicais, não avançam no mundo por si mesmas, como se o mundo estivesse num vácuo; elas precisam deser promovidas pelas pessoas, e, assim, sua promoção por tais pessoas – portanto, por um “movimento” – torna-se a principal tarefa para o libertário verdadeiramente empenhado em promover seus objetivos.

Deixando de lado estes homens de visão limitada, devemos também ver que o utilitarianismo – o terreno comum dos ecomistas do livre-mercado – é insatisfatório para desenvolver um movimento libertário próspero. Conquanto seja verdadeiro e valioso saber que um livre mercado traria muito mais abundância e uma economia mais saudável para todos, ricos ou pobres, um problema crítico é se este conhecimento é suficiente para levar as pessoas a uma vida dedicada à liberdade. Em resumo, quantas pessoas irão preencheras trincheiras e suportar os muitos sacrifícios que uma devoção séria à liberdade traz apenas para que incontáveis percentuais de pessoas tenham banheiras melhores? Não seria melhor ter uma vida simples e esquecer as banheiras? Em última instância, então, a economia utilitarista, porquanto indispensável na estrutura do pensamento e ação libertários, é um terreno de trabalho quase tão insatisfatório para o movimento quanto o daqueles oportunistas que simplesmente procuram um lucro em curto prazo.

A nossa visão é que um movimento libertário, uma vida de dedicação à liberdade, apenas pode prosperar se baseado em uma paixão pela justiça. Aqui deve estar nosso verdadeiro impulso, a armadura que nos sustentará em todas as tempestades vindouras, não a procura por um dinheiro fácil, o brincar de jogos intelectuais ou o frio cálculo de ganhos econômicos em geral. E, para ter uma paixão por justiça, deve-se ter uma teoria do que seja justiça e injustiça – em resumo, um conjunto de princípios éticos de justiça e injustiça que não podem ser providos pela economia utilitarista. É porque vemos no mundo injustiças empilhadas uma sobre as outras até os céus que somos impelidos a fazer tudo que podemos para alcançar um mundo no qual estas e outras injustiças serão erradicadas. Outros objetivos radicais tradicionais – como a “abolição da pobreza” – são, em contraste com esse, verdadeiramente utópicos, pois o homem, simplesmente pelo exercício de sua vontade, não pode abolir a pobreza. A pobreza só pode ser abolida através das operações de certos fatores econômicos – notadamente, os investimentos de poupança em capital – que só podem operar pela transformação da natureza durante um longo período de tempo. Em resumo, aqui, a vontade do homem é limitada severamente pelas operações – para usar um termo antiquado, mas ainda válido – da lei natural. Mas injustiças são fatosque são inflingidos por um conjunto de homens sobre outros; elas são precisamente as ações dos homens, e, assim, as injustiças e sua eliminação estão sujeitas ao instantâneo arbítrio do homem.

Vamos pegar um exemplo: A ocupação,centenária e brutal, e a opressão da Inglaterra sobre o povo da Irlanda. Se, em 1900, olhássemos o estado da Irlanda, e considerássemos a pobreza do povo da Irlanda, teríamos que dizer: a pobreza pode ser melhorada se a Inglaterra desocupar e remover seu monopólio sobre a terra, mas a eliminação última da pobreza na Irlanda, nas melhores condições, levaria tempo e estaria sujeita ao funcionamento das leis econômicas. Mas o objetivo de dar fim à opressão inglesa,este poderia ter sido feito pela ação instantânea do arbítrio dos homens: pela Inglaterra decidir simplesmente sair do país. O fato de que tais decisões claramente não produzem resultado instantâneo não importa. O que importa é que a injustiça foi decidida e posta em prática pelos seus perpetradores – neste caso, o governo inglês. No campo da justiça, a vontade do homem é tudo; os homens podem mover montanhas se quiserem. Uma paixão pela justiça instantânea – em resumo, uma paixão radical – é, portanto, não utópica, como seria um desejo pela eliminação instantânea da pobreza ou pela tranformação instantânea de todos em pianistas. Ajustiça pode ser conquistada instantanemente se gente suficiente assim desejar.

Uma verdadeira paixão por justiça, portanto, deve ser radical. Em resumo, deve pelo menos desejar atingir seus objetivos radical e instantaneamente. Leonard. E. Read, presidente-fundador da Foundation for Economic Education (FEE), expressou seu espírito radical com muita habilidade quanto escreveu o panfleto “Eu apertaria o botão”. O problema era o que fazer quanto à rede de controle de preços e salários então imposta à economia pelo Departamento de Administração de Preços. A maior parte dos economistas liberais advogavam tímida ou “realisticamente” uma ou outra forma de desregulamentação gradual ou cambaleante.Naquele momento, Read tomou uma posição em princípio radical e inequívoca: “se existisse um botão nestatribuna”, começou seu discurso, “e se apertá-lo instantaneamente liberasse todos os controles sobre salários e preços, eu colocaria meu dedo e apertaria”. O verdadeiro teste, então, para um espírito radical, é o teste do botão: se pudéssemos apertá-lo para obter a instantânea abolição de obstáculos injustas à liberdade, nós o faríamos? Se não o fizéssemos, mal poderíamos nos considerar libertários, e muitos de nós apenas fariam isso se guiados primariamente pela paixão pela justiça.

O libertário genuíno, então, é em todos os sentidos da palavra, um “abolicionista”; ele aboliria instantaneamente, se pudesse, todos os obstáculos à liberdade, fossem eles, no sentido original do termo, a escravidão, ou as outras instâncias de opressão estatal. Ele iria, nas palavras de outro libertário, “criar um calo no polegar apertando aquele botão!” O libertário deve ser forçosamente um “apertador-de-botão” e um “abolicionista”. Motivado pela justiça,ele não pode ser movido pelas alegacoes utilitárias amorais de que a justiça não é feita até que os criminosos sejam “compensados.” Assim, nos primórdios do século XIX, quando o grande movimento abolicionista surgiu, prontamente apareceram vozes de moderação, aconselhando que apenas seria justo abolir a escravidão se os donos pudessem ser compensados por uma generosa soma, cobrada à força das massa de contribuintes inocentes! O comentatário mais hábilsobre esta proposta foi feito pelo filósofo radical inglês Benjamin Pearson, que destacou que “pensava que eram os escravos que deveriam ter sido compensados”; claramente, tal compensação apenas poderia vir dos próprios donos.

Anti-libertários e anti-radicais em geral caracteristicamente levantam a questão de que tal “abolicionismo” é “irrealista”; ao fazer tal acusação estão desesperançosamente confundindo o objetivo desejado com a estimativa estratégica do resultado provável. Em princípio, é da maior importância não misturar estimativas estratégicas como forjar dos objetivos desejados. Primeiramente, objetivos devem ser formulados, os quais, neste caso, seriam a abolição instantânea da escravidão ou qualquer outra opressão estatal que estivermos considerando. E devemos primeiramente estruturar estes objetivos sem considerar a probabilidade de atingi-los. Os objetivos libertários são realistas no sentido em que eles poderiam ser alcançados se gente suficiente concordasse sobre sua desejabilidade, e que, se conquistados, trariam um mundo muito melhor. O “realismo” do objetivo pode apenas ser desafiado por uma crítica do objetivo em si, não pelo problema de como atingi-lo. Assim, depois termos decididos o objetivo, enfrentamos a questão estratégica inteiramente separada de como atingir aquele objetivo tão rápido quando possível, de como construir um movimento para atingi-lo, etc. Por isso, William Lloyd Garrison não estava sendo “irrealista” quando, na década de 1830, levantou o glorioso estandarte da imediata emancipação dos escravos. Seu objetivo era o objetivo em si, e seu realismo estratégico estava no fato de que ele não esperava que seu objetivo fosse alcançado rapidamente. Ou, como o próprio Garrison distinguiu:

“Urge a imediata abolição (…);mas ela será gradual. Nunca dissemos que a escravidão seria derrubada por um simples sopro; que ela deva ser, é algo que devemos sempre defender.”

Aliás, no terreno das estratégias, levantar a bandeira do princípio puro e radical é geralmente o modo mais fácil de se chegar aos objetivos radicais. Pois se umobjetivo puro não é trazido à frente, nunca haverá qualquer movimento desenvolvido de modo a se guiar em direção a ele. A escravidão nunca teria sido abolida se os abolicionistas não tivessem gritado trinta anos antes; e, como as coisas vieram a ser, a abolição foi em verdade mais um único sopro que algo gradual. Mas, acima e além dos requisitos da estratégi aestão os comandos da justiça. No famoso editorial que lançou “The Liberator” no início de 1831, William Lloyd Garrinson arrependeu-se de sua prévia adoção da doutrina da abolição gradual:

“Aproveito esta oportunidade para fazer uma completa e inequívoca retratação, e assim publicamente pedir perdão ao meu Deus, ao meu país, e aos meus irmãos, os pobres escravos, por ter pronunciado um sentimento tão cheio de timidez, injustiça e absurdos.”

Sendo reprovado por sua habitual severidade e pelo ardor de sua linguagem, Garrison replicou: “Necessito estar todo em chamas, pois tenho montanhas de gelo ao meu redor para derreter”. É este o espírito que deve marcar o homem verdadeiramente dedicado à causa da liberdade.

Capítulo extraído do livro Conservatism in America Since 1930: A Reader, editado por Gregory L. Schneider. Compre o livro aqui.

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